Transporte e Mobilidade

Associação de direito, não de fato: destino do Clube Federal está em juízo


Após longa crise institucional, decisão judicial determina convocação de eleições; movimento que pode influenciar a recuperação de outras agremiações cariocas

Era de lei: todo sábado, cinquenta dos outrora 4000 sócios do Clube Federal, no Alto Leblon, dividiam-se em times para jogar pelo menos quatro concorridas partidas de futebol. O ritual durou três décadas e se encerrou no final do ano passado.

O campo de grama sintética representa o abandono das demais dependências da tradicional agremiação carioca: só sobraram oito jogadores entre os últimos cem associados que ainda insistem em pagar 1000 reais por mês para não perder o vínculo com o espaço. Nos tempos áureos, cariocas ilustres, como o vizinho Chico Buarque e o craque Zico, bateram uma bolinha por ali.

“Nossa pelada era sagrada. Mexeu com ela, mexeu comigo”, reage o secretário municipal de Administração e sócio-proprietário Bernardo Egas, que pegou a bola para si e resolveu partir para o ataque.

De um mês para cá, ele vem denunciando o sucateamento do clube que frequenta desde menino, e que teve a derradeira eleição em 1998. Mas com a morte do presidente reeleito, Alexandre Euclydes Pinaud, a administração foi misteriosamente transferida para sua filha, Karla Pinaud, que segue no cargo por quase três décadas.

“A estratégia dela é terceirizar vários ambientes, porque isso gera renda independentemente das mensalidades. Quem reclama sofre retaliações e acaba saindo”, diz Egas, decidido a não abrir mão do patrimônio emocional que herdou do pai: “A gente fica por teimosia.

Temos que nos mobilizar para manter viva essa tradição familiar”.

Fundado por funcionários da Receita Federal em 1970, num terreno de 12000 metros quadrados na Rua Timóteo da Costa, o Federal se debruça sobre uma paisagem de tirar o fôlego. Lá de cima avista-se o Jockey Club, a Lagoa e a Praia do Leblon.

Seus bailes de Carnaval — parte da então programação oficial da cidade, com presença cativa de Clóvis Bornay (1916- 2005) — eram famosos e disputados, assim como suas festas. O local chegou a servir até de locação para cenas de Vale Tudo, em 1988 — era lá que ficava o restaurante da Raquel, instalado na Hípica no remake de 2025.

Tudo isso ficou no passado. O que se vê agora no nobre endereço é reflexo do descaso da administração: grade de ferro literalmente tombada, parquinho infantil com grama alta e brinquedos enferrujados, piscina sem manutenção e quadra de tênis depredada, ao ponto de os professores providenciarem uma reforma para dar aulas, além de lixo e entulho por todo canto.

O telhado da antiga academia chegou a cair, em 2024. “Peguei o fim do auge.

Com a dinastia Pinaud, veio o ocaso. O clube foi perdendo a pujança e ficou todo cacarecado”, constata o engenheiro químico Ricardo Peixoto, sócio desde 1988.

Os problemas se acumulam. “Hoje não dá nem para comer um queijo quente, porque não há bar, nem restaurante.

No entanto, alugaram espaço para uma cozinha industrial que vende quentinhas”, denuncia Egas. Com ela, veio um exaustor que fica ligado o dia inteiro, incomodando a vizinhança com barulho e mau cheiro.

“Até os animais silvestres perderam a paz”, reclama um morador que nem é sócio, mas acompanha tudo de sua janela, preocupado: “Assisto de camarote, parece uma colcha de retalhos”. O medo de todos é que se trate de uma estratégia para esvaziar o clube, tornando o terreno alvo da especulação imobiliária.

Uma luz de esperança se acendeu na primeira semana de maio, quando a Justiça do Rio determinou que o Federal convoque, em até trinta dias, uma Assembleia Geral para a realização de eleições. A decisão, da 11ª Vara Cível, atende a uma ação movida em 2024 por dois sócios inconformados com a situação e prevê aplicação de multa em caso de descumprimento.

Na sentença, a juíza Lindalva Soares Silva aponta que a ausência prolongada de processos eleitorais compromete princípios básicos, como a autonomia associativa e a gestão democrática. A magistrada afirma que a degradação das instalações da sede reforça a necessidade de intervenção judicial imediata.

A oposição já organiza uma chapa para concorrer ao pleito. E Karla segue sem dar declarações.

“O e-mail do clube é nãoresponda@clubefederal. com.

br. Você acha que é de alguém que quer conversar?”

, questiona Egas. Otimista com o mais recente lance da pendenga, ele convocou os cariocas a reunir casos de outras agremiações com problemas (veja mais no box acima).

Afinal, todos deveriam funcionar como espaços de pertencimento e lazer, oferecendo infraestrutura para atividades físicas, educação, cultura e a construção de laços comunitários. “A ideia é montar uma frente parlamentar para defender essas instituições”, explica.

“Se salvarmos o Federal, o case de superação pode influenciar os demais”. Antes tarde do que ainda mais tarde.

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À espera da salvação

Outros três clubes cariocas sofrem com o abandono e a degradação

Esporte Clube Radar

Fundado em 1932, em Copacabana, está marcado na história do futebol feminino brasileiro, por ter sido um dos primeiros a estruturar um projeto competitivo, tornando-se referência nacional no início da década de 1980 — um ano após o fim da lei que proibia a prática do esporte por mulheres. Entre 1983 e 1988, venceu todas as edições da antiga Taça Brasil, tornando-se hexacampeão nacional, além de repetir o feito no Campeonato Carioca feminino, com seis títulos consecutivos.

Abandonado, tornou-se motivo de preocupação para os vizinhos, principalmente porque a piscina acumula água da chuva, transformando-se em foco de dengue.

Esporte Clube Maxwell

Por 77 anos, funcionou como um espaço de convivência em Vila Isabel, Zona Norte. Tinha piscina, time próprio de futebol de salão, espaço para shows, eventos e feiras, recebendo até ensaios do Salgueiro.

Nos últimos anos de existência, já em decadência, foi alvo de operações policiais para estourar bingos que funcionavam clandestinamente. Fechado desde 2017, mesmo ano em que a sede foi tombada pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), chama a atenção pelas péssimas condições do prédio, tomado por lixo e pichações na fachada.

O imóvel agora pertence ao Rioprevidência, autarquia do governo do estado, mas nenhum plano de revitalização saiu do papel.

Grajaú tênis Clube

A tradicional associação da Zona Norte foi celeiro de craques do futebol de salão e de campo. Lá chegou a jogar Ronaldo Fenômeno, aos 15 anos.

Em 2019, quando completou 94 anos, foi declarado utilidade pública por decreto do então prefeito, Marcelo Crivella, para fins de desapropriação. A intenção era evitar que o imóvel, com duas quadras de tênis, três piscinas, restaurante, academia, teatro, três salões de dança e três de festas, totalizando quase 8 000 metros quadrados de área edificada, fosse leiloado por dívidas trabalhistas, dando ao poder público prioridade na sua aquisição.

Mas, por decisão judicial, a sede acabou indo a leilão em 2023, com lance inicial de cerca de 12,5 milhões, sem interessados. De lá para cá houve outros certames sem lances.

Uma nova tentativa está marcada para 6 de dezembro. Enquanto isso, o local é utilizado para atividades terceirizadas, como escolinhas de esportes.

Fonte: VEJA RIO.

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