Assim como o querido Voz das Comunidades, o Rio de Janeiro conta com outras vitais iniciativas de jornalismo de impacto comunitário. O Fala Roça atua na Rocinha, e o Maré de Notícias ecoa a voz do Conjunto de Favelas da Maré.
Do outro lado do imenso paredão verde da Floresta da Tijuca a realidade não é diferente. A Zona Oeste também tem sua comunicação forte: a premiada Agência Lume, em Rio das Pedras.
“A Lume nasceu em agosto de 2020, no caos da pandemia, mas em 2019 ela já existia”, explica Fernanda Calé, fundadora. A semente foi plantada antes: “Meu TCC já foi um site de notícias locais, inspirado na minha avó e bisavô”.
A motivação de Fernanda era romper com a percepção estigmatizada, combatendo a “cobertura de longe” da mídia tradicional, que olhava para Rio das Pedras só pela ótica da tragédia.
Com os recursos guardados e o desenvolvedor Messias, a agência ganhou corpo. Depois, o publicitário Douglas injetou carisma e criatividade visual para jovens comunicadores montarem seus portfólios.
Mais que um veículo, a Lume surgiu como um compromisso de afeto e potência favelada.
As 111 Ruas do Amparo
Fernanda conta que uma reportagem emblemática denunciou o preconceito contra moradores na crise sanitária. Sem CEPs nas vielas, o sistema de saúde registrava metade da comunidade em só três códigos postais.
Parecia que a maioria morava nos endereços com mais casos, pânico impulsionado pela grande mídia. A Lume agiu: “Recebemos denúncias de moradores sofrendo preconceito no trabalho por isso.
Fizemos uma matéria entrevistando as pessoas. Queríamos que o morador mostrasse a verdade ao patrão.
Foi a nossa matéria mais representativa”, relata.
Com a vivência, a Lume notou que só noticiar não bastava. Focaram então em impacto social e advocacy, entendendo que a mudança precisa ser interna.
Passaram a fomentar uma sociedade civil ativa. “Em vez de só noticiar um problema e aguardar, ensinamos o morador a registrar os números de protocolo das empresas”.
Essa postura tornou o portal uma ferramenta de mobilização real, capacitando o morador como protagonista para transformar denúncias em resoluções.
Atuação social e o amanhã
Indo além, a Lume promove ações sociais. O projeto “Lembranças” resgata a identidade local.
“É um resgate de memórias. Via o pessoal de outras favelas falando de suas lutas e pensei: ‘preciso contar a nossa história’.
Criamos laços com as novas gerações”, diz. Outro movimento é o “Formou”, que forma novos comunicadores.
O programa levou alunos da favela direto para a Bienal do Livro. “Tinha aluno que nunca tinha saído de Rio das Pedras, nem ido a exposições.
Eles entrevistaram o curador e amaram. O objetivo é ensinar os jovens a amarem seu chão”, relembra.
Para os próximos anos, a principal meta é a autossustentabilidade: “Queria mais visibilidade interna. Tem muita gente na favela para conhecer nosso trabalho e luta.
E quem atua com impacto social só prova sua real capacidade se tiver apoio constante para os projetos”. O compromisso ético segue inabalável: tratar Rio das Pedras com a dignidade que merece, longe dos clichês de segurança pública.
A Lume prova que a comunicação de dentro para fora é a luz necessária para a favela ser vista sob a ótica da verdade, da cultura e da resistência.
Fonte: Vozdascomunidades.
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