Livro e documentário devolvem Berta Ribeiro ao centro da história
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Livro e documentário devolvem Berta Ribeiro ao centro da história


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Evento acompanhado por O Fluminense reuniu documentário, conversa com leitores e autógrafos, destacando o esforço da autora para reparar o apagamento histórico da antropóloga O lançamento de O Que Devemos à Berta Ribeiro? A antropóloga que viu as Civilizações da Floresta, da historiadora Bianca Luiza Freire de Castro França, foi mais do que uma noite literária. Foi um gesto de memória, reconhecimento e reparação. A obra, apresentada no Acaso Cultural, em Botafogo, no Rio, resgata a trajetória de Berta Gleizer Ribeiro, antropóloga, etnóloga e museóloga que teve papel decisivo nos estudos sobre povos indígenas, cultura material, museus, arte, tecnologia tradicional e saberes ecológicos. O evento, acompanhado por O Fluminense, começou com a exibição do documentário Para Berta, com amor, dirigido pela própria Bianca França, seguiu com uma roda de conversa com leitores e terminou com sessão de autógrafos. Segundo a autora, o filme funciona como uma espécie de “carta aberta dos amigos e admiradores a Berta Ribeiro”, reunindo memória, afeto e reconhecimento em torno de uma intelectual que ajudou a pensar o Brasil a partir da floresta, dos povos originários e dos objetos que carregam conhecimento. Em conversa com a reportagem, Bianca explicou que conheceu a obra de Berta Ribeiro durante seus primeiros contatos com o Museu Nacional. Ela entrou na instituição como estagiária em 2013, ainda na graduação em História na UniRio, dentro do projeto de extensão “Conhecendo as Coleções Ticuna do Museu Nacional”. Ali, trabalhou com objetos Ticuna e passou a lidar diretamente com o Dicionário do Artesanato Indígena, publicado por Berta em 1988, obra que, segundo a autora, segue contribuindo para pesquisadores e instituições que atuam com cultura material. A trajetória de Bianca também foi atravessada por um dos episódios mais dramáticos da ciência brasileira recente: o incêndio do Museu Nacional, em 2018. Ela continuou trabalhando com as coleções Ticuna até o mestrado, e sua dissertação acabou se tornando um dos últimos registros desses objetos. A pesquisa recebeu prêmio da Sociedade de História da Ciência em 2020 e deu origem ao livro Mil Peças: Coleções Ticuna do Museu Nacional, publicado pelo Setor de Etnologia do museu. Com o incêndio, o objeto de pesquisa do doutorado mudou. O foco passou a ser a vida e a obra de Berta Ribeiro e sua contribuição para a antropologia ecológica no Brasil. Bianca defendeu a tese na FGV em 2023, um ano antes do centenário de Berta. A partir desse trabalho, vieram o documentário Para Berta, com amor, indicado ao Festival DOCLuanda, em Angola, o enredo da G.R.E.S. Tubarão de Mesquita para 2026, “Berta Ribeiro: Da Praça Onze ao Coração da Floresta”, e agora o livro. Segundo Bianca, O Que Devemos à Berta Ribeiro? é a tese reeditada com notas comentadas e um capítulo a mais, dedicado à análise do filme e do enredo. “O livro encerra um ciclo, digamos assim”, afirmou a autora. A importância de Berta Ribeiro vai muito além de sua relação com Darcy Ribeiro, de quem foi companheira. No Museu do Índio, hoje Museu Nacional dos Povos Indígenas, ela atuou na organização de acervos, na catalogação da cultura material indígena e na estruturação de referências que ainda orientam pesquisadores. Fontes oficiais do museu registram que Berta catalogou milhares de peças do acervo, trabalhou com objetos de dezenas de povos indígenas e deu origem a instrumentos fundamentais, como o Dicionário do Artesanato Indígena. Esse trabalho ajudou a tirar os objetos indígenas do lugar de simples curiosidade ou peça de vitrine. Para Berta, cestarias, grafismos, instrumentos, utensílios e técnicas tradicionais eram formas de conhecimento. Eles falavam de economia, ambiente, espiritualidade, trabalho, estética e sobrevivência. Ao estudar a cultura material indígena com seriedade, ela também ajudou a combater a visão preconceituosa que tratava os povos originários como passado, e não como sociedades vivas, complexas e produtoras de ciência, arte e pensamento. A nova obra de Bianca França enfrenta justamente uma injustiça histórica: a de uma mulher brilhante que, durante muito tempo, acabou lida à sombra do marido. A autora propõe uma correção necessária. Berta não foi apenas colaboradora, companheira ou auxiliar. Foi pesquisadora com obra própria, método próprio e contribuição decisiva para a antropologia brasileira. A resposta de Bianca à reportagem ajuda a dimensionar esse apagamento. Ela só tomou contato mais profundo com Berta quando entrou na área, e mesmo colegas de trabalho não sabiam quem era a antropóloga. Se até pessoas ligadas ao campo de pesquisa desconheciam sua importância, recuperar sua memória deixa de ser apenas escolha acadêmica e passa a ser uma tarefa pública. É nesse ponto que a coragem intelectual de Bianca França merece destaque. Dedicar anos de pesquisa a uma figura injustamente esquecida é uma empreitada difícil, por vezes ingrata, mas profundamente necessária. A autora não apenas escreveu sobre Berta. Ela decidiu abrir caminhos para que mais pessoas pudessem conhecê-la, articulando pesquisa acadêmica, livro, documentário, memória institucional e carnaval. Essa escolha é nobre porque toca em um problema atual da sociedade brasileira: a dificuldade de reconhecer mulheres que produziram conhecimento em ambientes marcados por hierarquias masculinas. No caso de Berta Ribeiro, o apagamento é ainda mais simbólico porque sua obra valorizou povos que também foram historicamente silenciados. Recuperar Berta é, ao mesmo tempo, discutir ciência, gênero, memória, povos indígenas e justiça histórica. O livro também se conecta à discussão contemporânea sobre autoria indígena. Berta teve papel importante no incentivo à publicação de Antes o mundo não existia, obra de autores Desana que marcou a etnologia brasileira ao apresentar mitos indígenas por seus próprios criadores. Esse gesto, hoje, ganha novo peso diante dos debates sobre protagonismo, direitos intelectuais e respeito aos saberes dos povos originários. Ao final do encontro, a pergunta que dá título ao livro permaneceu no ar: o que devemos a Berta Ribeiro? Devemos, antes de tudo, reconhecimento. Devemos ler sua obra, compreender sua contribuição e recusar a ideia de que a história da ciência brasileira possa continuar sendo contada apenas pelos nomes que o cânone escolheu iluminar. Segundo Bianca França, as próximas agendas de divulgação confirmadas são a participação no 22º Encontro de História da ANPUH-Rio, no Colégio Pedro II, campus Tijuca, no dia 21 de julho, às 17h, e a presença no estande do Espaço Leia Mais na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, de 4 a 13 de setembro, no Distrito Anhembi. Mais do que registrar um lançamento, a noite no Acaso Cultural mostrou que Berta Ribeiro ainda tem muito a dizer ao Brasil de hoje. E mostrou também que há trabalhos acadêmicos que, quando feitos com coragem e compromisso, ultrapassam a universidade e ajudam a sociedade a enxergar melhor as mulheres, os povos e os saberes que ela se acostumou a deixar na sombra.

Fonte para revisão: O Fluminense.

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