Julinho e Rute abrem série ‘Entrevistão’ e falam sobre cabine dupla, julgamentos, estrutura e novo desafio na União de Maricá
Política RJ

Julinho e Rute abrem série ‘Entrevistão’ e falam sobre cabine dupla, julgamentos, estrutura e novo desafio na União de Maricá


Quase vinte anos. É o tempo que Julinho Nascimento e Rute Alves dançam juntos, e também o tempo suficiente para construir uma linguagem própria, uma lealdade rara e uma carreira que atravessou rebaixamentos, títulos, mortes e recomeços.

Para abrir a série “Entrevistão”, o CARNAVALESCO conversou com um dos casais mais longevos do Grupo Especial. Campeões pela Viradouro com 40 pontos no último carnaval, eles chegam à União de Maricá com a missão de abrir o domingo do Especial pela primeira vez em toda a parceria.

Nesta conversa, falam sobre o que encontraram no barracão de Maricá, sobre a cabine dupla, sobre a noite em que Julinho soube da morte do irmão minutos antes de entrar na concentração do ensaio técnico e ainda assim entrou. E sobre o que significa, depois de tudo, não ter soltado a mão um do outro.

  • Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp O sentimento de vocês aqui é o mesmo de quando saíram da Tijuca e apostaram na Viradouro ou tem diferença?

Rute Alves: Não vejo semelhança; as situações, ao contrário, são bem diferentes. Na Tijuca, foi a primeira vez que eu fui demitida de uma escola de samba.

Foi um ano trágico, politicamente trágico, que repercutiu e respingou em todo o carnaval. Não tivemos ensaios técnicos nem aporte nenhum da Prefeitura para o carnaval.

E resultou naquele desfile trágico de 2017, de vários acidentes, e nós estávamos na escola que teve um dos maiores acidentes. Eu me lembro que a gente ficou quase 40 minutos parados em frente à cabine dupla quando teve o acidente.

E a nota foi muito ruim: 9,7. E aí o Sr.

Fernando dispensou a gente, com todo o direito. Sempre penso que é a forma que se manda embora e não o mandar embora.

Todo mundo tem direito. Assim como um dia ele achou que a gente podia defender da melhor forma o pavilhão, naquele ano, ele achou que a gente não deveria mais defender.

E, antes ainda dessa dispensa do Sr. Fernando, no Sábado das Campeãs, recebi uma ligação do Marcio Moura, na época da comissão de frente da Viradouro, dizendo que o Marcelo Calil, o pai, gostava muito do nosso trabalho e sempre que a gente passava [na avenida] ele estava no camarote e falava: ‘Ainda vou ter esse casal na minha escola’.

Saímos de uma demissão com a pior nota entre os casais do Grupo Especial, vencendo um ano trágico e fomos para uma escola que quem estava ali sabia da potência dela, mas quem estava ao redor não. A escola estava no Acesso.

Quando a gente chegou na Viradouro e conversamos com o Marcelo, logo o estar no Grupo Especial já passou a não fazer diferença para a gente. Primeiro, porque a gente já começou com uma estrutura que nunca tinha tido no Especial.

Todas as nossas ponderações, tudo o que a gente pediu, ele aceitou. Eu me lembro que falei assim para o Júlio: ‘Não importa para onde a gente vá, mas para onde a gente for, temos que ter uma ensaiadora’.

Era só eu e ele, sabe? É muito difícil um casal ir para a avenida sem um ensaiador.

E o Marcelo aceitou. Também me lembro que teve uma situação que foi muito chata: alguns casais do Grupo Especial desdenharam da gente em rede social e fizeram live para debochar que a gente estava no Acesso.

As pessoas, ao invés de ensaiar, fizeram live para debochar do Julinho e de mim. Mal sabiam eles o quanto a gente estava feliz na Viradouro.

Mal sabiam eles o quanto a gente estava sendo respeitado, o quanto a gente estava financeiramente sendo respeitado também, que a estrutura que tínhamos nunca tivemos antes. Tanto que, em nove carnavais na Viradouro, entregamos nota todos os anos.

O único ano que não entregamos nota, perdemos um décimo, ainda assim foi o ano que o Júlio teve o problema com o sapato. Nove carnavais dando 30 ou 40 pontos diz todo o resultado e diz sobre o porquê a gente não ter dado esse resultado na Tijuca.

E nós saímos tão pela porta da frente na Tijuca que, quando a gente saiu esse ano da Viradouro, o Sr. Fernando ligou querendo que a gente voltasse para a escola.

Esse ano nós saímos campeões com 40 pontos. E foi nossa opção sair.

Nós não fomos mandados embora. E viemos para uma escola que talvez nove entre dez profissionais queiram vir trabalhar.

A Viradouro tinha uma estrutura que não era vista por fora pelas pessoas. A Maricá tem uma estrutura que é vista por todos, e ela está no Especial e vai permanecer no Especial.

Dizem que trabalhar na Maricá é excelente pelo lado profissional e financeiro. É diferente de tudo o que vocês já viveram?

Rute Alves: Ano que vem faço 30 anos como porta-bandeira de carnavais e a Viradouro foi a primeira que me deu estrutura. Isso é inegável.

Era o que a gente precisava e, ao longo desses anos, não teve um senão. Penso que, para um casal dar resultado na avenida, precisa de uma estrutura.

Tivemos agora uma reunião com os jurados, e o Zikan, que é um dos nossos jurados, levantou essa fala: os casais têm que ter estrutura, ensaiador, preparador físico, pelo que a gente carrega, por todas as demandas que existem. As pessoas pensam que é só no dia do desfile, mas não é só no dia do desfile.

É toda uma preparação, e a gente precisa estar bem em toda essa preparação. E a escola que não oferece isso não vai ter casal gabaritando.

Não vai ter. Quando a gente veio para cá, falamos tudo o que a gente já tinha e precisava: do ateliê que faz a nossa fantasia, que gostaríamos de continuar.

E foi tudo aceito. Em termos de estrutura, o que a gente já tinha na Viradouro, aqui temos também para nós e para a nossa equipe.

É impossível não se apaixonar por aquela sala (de ensaios). Porque não é só a sala: a gente precisa de colchonetes, barra, som.

O diretor de carnaval não tem como saber o que um casal precisa, e tudo foi dado 100%. Eles querem ver a gente emocionados e felizes.

Não é barganha: ‘eu estou te dando para você me dar a nota’. Claro que o resultado final é a nota.

Óbvio. Mas é: ‘fique feliz no processo, seja feliz no caminho’.

E isso faz muita diferença. Quando o Matheus [Santos, presidente da Maricá], que é a nossa voz maior aqui na escola, faz as reuniões, emana isso: amor.

A gente vê que está todo mundo muito comprometido. A gente está indo para voltar no Sábado das Campeãs.

Só que a certeza disso a gente só vai ter na quarta-feira de cinzas. Está todo mundo nesse propósito, com amor, com felicidade… cheirinho de casa nova de verdade.

Esse barracão aqui nunca tinha visto uma obra. Ele não fez uma coisa só para entrar, estar e fazer o carnaval.

Fez uma coisa para a gente ter dignidade no trabalho. Para todo mundo entrar com prazer e trabalhar com prazer,.

Todo mundo tem que estar bem.

[… ]

Fonte: Carnavalesco.

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