14 anos depois do fechamento do lixão de Gramacho, catadores ainda perdem com o discurso 'sustentável'
Segurança Pública

14 anos depois do fechamento do lixão de Gramacho, catadores ainda perdem com o discurso 'sustentável'


Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, é internacionalmente conhecido como cenário do filme “Lixo Extraordinário” (2010), sobre o maior lixão da América Latina, que funcionou ali até ser fechado em 2012. Quatorze anos depois, o bairro segue convivendo com lixo nas ruas, falta de saneamento e renda precária dos catadores.

Situado ao longo da Rodovia Washington Luiz, na foz dos rios Sarapuí e Iguaçu, o bairro é cercado por uma extensa faixa de mangues da bacia da Baía de Guanabara. Embora esteja a apenas oito quilômetros em linha reta do centro do Rio — uma das áreas mais caras do país —, sofre com negligência do Estado e infraestrutura precária.

“O que mais afeta meu dia a dia é a sujeira e o ar poluído. Tem muito lixo nas ruas, elas são muito sujas”, relata Laiane Oliveira, 28, moradora e catadora. “Vivi muito tempo sem acesso à água potável e vejo muitos moradores ainda hoje sem esse direito básico”, complementa Larissa Pacheco, 30, assistente social formada na UFRJ.

Após o fechamento do lixão, milhares de catadores que dependiam diretamente da atividade ficaram sem renda, sem que houvesse transição econômica estruturada. As promessas de revitalização — cooperativas de reciclagem, conjuntos habitacionais, creches, cursos profissionalizantes — só se cumpriram parcialmente. Foi instalada apenas uma planta de biogás de mais de três hectares, transformando passivos ambientais em ativos econômicos, mas sem reparação social.

A devalorização dos recicláveis se acentuou. Antes, a competição entre depositários no entorno do lixão dava algum poder de barganha aos catadores. Hoje, com o fluxo reduzido e o avanço de despejos clandestinos, o catador depende dos donos desses espaços, que cobram taxas e impõem preços baixos.

“Quando tinha o despejo do Gramacho, eu fazia um bom dinheiro — fazia minha vida do jeito que eu queria. Se eu quisesse passar a noite inteira ali e juntar 10 lonas a R$ 30 cada, eu podia. Hoje, não consigo juntar uma lona sem ter esse valor reduzido”, diz Josias Silva, 50, catador.

Pesquisadores apontam uma “pirâmide da falsa sustentabilidade”: na base, catadores em condições precárias; no meio, donos de depósitos; no topo, empresas que lucram com o discurso verde. “Não dá para falar de sustentabilidade sem incluir nossa renda, nosso sustento”, resume Laiane.

Com informações de RioOnWatch.

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