'Conferência Internacional das Favelas' acontece sem favelados: a cidade (des)integrada
Política RJ

'Conferência Internacional das Favelas' acontece sem favelados: a cidade (des)integrada


A “Conferência Internacional das Favelas”, realizada nos dias 17 e 18 de março pelo Instituto de Arquitetos do Brasil-RJ (IAB-RJ) e pelo governo do estado para promover o programa Cidade Integrada, teve participação zero de moradores de favelas. Um dos slogans dizia “Cidades Integradas: passado, presente e futuro”.

O programa Cidade Integrada foi lançado em janeiro de 2022 com uma operação policial no Jacarezinho, na zona norte, oito meses depois do Massacre do Jacarezinho — o maior da história do estado até então, defendido pelo então governador Cláudio Castro.

No primeiro dia, no auditório anexo ao Palácio Guanabara (residência do governador), os antropólogos estrangeiros Janice Perlman e Santiago Uribe palestraram sobre o caso de Medellín, mediados por Sérgio Magalhães, fundador do Favela-Bairro. A tarde fechou com visita ao Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, em Ipanema. No segundo dia, foi a vez de uma oficina arquitetônica e mesa redonda.

“O evento usou o nome ‘Conferência Internacional das Favelas’ para legitimar um projeto de governo voltado à segurança… Não foi descuido, foi a destilação perfeita da política do Estado para favelas: financiamento de infraestrutura dura (e da polícia), migalhas de espaço para participação popular e muito brilho internacional para mascarar a ausência de escuta”, afirma Zilda Soares, do Coletivo Fala Akari.

Daniel Alves, da Seropédica e estudante de Arquitetura e Urbanismo da UFRRJ, aponta problemas concretos do programa: “Apesar do investimento [no Cidade Integrada em Pavãozinho], ainda vemos esgoto a céu aberto perto da entrada que liga a comunidade à unidade pública, acúmulo de lixo e alta demanda, sobrecarregando os elevadores”.

Durante visita ao Cantagalo, o grupo descobriu que o novo “complexo multiserviço” — ainda chamado pelos moradores de Brizolão — passaria a abrigar também uma base do Batalhão da PM a partir de 26 de março. A iniciativa lembra as antigas UPPs.

“As favelas criam soluções antes dos governos e da academia. O evento foi requintado no discurso, bem planejado no papel, retoricamente desenvolvido, mas mal executado”, conclui o jornalista Charlie Gomes, da Rocinha.

Com informações de RioOnWatch.

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