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Jiu-jítsu gratuito conquista famílias e revela campeões em São Gonçalo e Niterói


O que começou com apenas 20 alunos, em janeiro de 2023, se transformou em um dos maiores projetos sociais de jiu-jítsu da região. Totalmente gratuito, o projeto da equipe AOW Jiu-Jítsu já atende cerca de 400 crianças, adolescentes e adultos em 11 polos espalhados por São Gonçalo e Niterói, na Região Metropolitana do Rio.

Mais do que ensinar golpes, a iniciativa tem mudado histórias de vida, fortalecido famílias e revelado campeões estaduais e brasileiros da modalidade.

O fundador da equipe, o mestre Radson Souza, de 37 anos, conhece de perto o poder transformador do esporte. Ainda criança, ele participou do Projeto Grael, em Niterói, onde começou a velejar.

Foi ali que nasceu o sonho de criar uma iniciativa semelhante.

“Eu sempre dizia que um dia teria um projeto social. Depois conheci o jiu-jítsu, comecei a competir e prometi que, quando chegasse à faixa marrom, abriria um projeto gratuito.

E foi exatamente o que fiz”, revela ao ENFOCO.

Três anos depois, o crescimento impressiona. A primeira turma tinha apenas 20 alunos.

Ainda no primeiro ano, o número saltou para cerca de 150 participantes. Com a abertura de novos polos, a procura continuou aumentando até chegar aos atuais 400 alunos.

Hoje, as aulas acontecem nos bairros da Trindade, Alcântara, Mutuapira, Salgueiro, Itaúna, Ipiíba, Gradim, Mutondo e Colubandê, em São Gonçalo, e Fonseca, em Niterói. O projeto também atende moradores de comunidades como Salgueiro, Morro do Céu e Teixeira de Freitas.

Segundo Radson, as inscrições permanecem abertas e não há cobrança de mensalidade. Os interessados só devem fazer contato pelas redes sociais da AOW Jiu-Jítsu, ou através do WhatsApp (21) 99060-2794.

Esporte democrático

A diversidade dos alunos chama atenção. O mais novo tem apenas quatro anos de idade.

O mais experiente, 77. Também não faltam famílias inteiras dividindo o tatame.

Há pais e filhos, mães e filhos e irmãos treinando juntos. Atualmente, cerca de 40% da equipe é formada por mulheres, um número que cresce a cada ano.

Para Radson, o maior resultado não é o número de medalhas conquistadas, mas as mudanças que o esporte provoca no comportamento dos alunos.

“São muitas transformações, principalmente nas crianças e adolescentes, tornando eles pessoas melhores. Fico feliz quando recebo esses feedbacks dos pais”, disse.

Segundo ele, o tatame ensina muito mais do que técnicas de luta. “Respeito, disciplina, confiança… O tatame é o lugar mais democrático do mundo”, enfatiza.

Embora o projeto tenha forte vocação competitiva, participar de campeonatos nunca é uma obrigação. Os treinos são preparados para quem deseja competir, mas cada aluno escolhe seu próprio caminho.

Mesmo assim, a equipe já coleciona resultados expressivos.

Conquistas

Diversos atletas conquistaram títulos estaduais e brasileiros organizados pela Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) e pela Federação Internacional de Jiu-Jitsu Brasileiro (IBJJF), consideradas as principais entidades do jiu-jítsu mundial.

Entre os destaques está a estudante Gabriella Silva Miranda, de 15 anos, moradora da Trindade, em São Gonçalo, que treina no polo principal da AOW desde praticamente a inauguração do projeto. Ela conta que fez apenas uma aula experimental e nunca mais deixou o tatame.

Em apenas três anos de dedicação, Gabriella já conquistou um título brasileiro. Ela recorda com emoção a competição disputada em junho de 2024, quando, aos 13 anos, venceu seu primeiro Campeonato Brasileiro na faixa cinza.

Atualmente, ela é faixa laranja.

Além da medalha, a viagem marcou sua primeira experiência longe dos pais. “Logo depois que eu fui campeã, mandei mensagem para minha mãe dizendo que tinha ganhado.

Ela falou que tinha visto pela televisão e chorava de felicidade. Acho que foi uma das melhores sensações da minha vida”, relembra.

A jovem afirma que o esporte mudou completamente sua rotina e sua forma de enxergar a vida. “Criei mais responsabilidade.

Acaba que tenho que abrir mão de muitas coisas para viver o meu sonho”, revelou.

Ela admite que já pensou em desistir em alguns momentos, mas diz que a persistência sempre falou mais alto. “Tem muitas meninas que se inspiram em mim e fico muito feliz por isso”, admite.

O sonho da atleta é competir fora do Brasil e construir uma carreira de destaque ao lado da equipe que a revelou.

Outra atleta que simboliza os resultados do projeto é Giovana Costa Braga, de 14 anos, também moradora da Trindade. Há pouco mais de dois anos na equipe, ela conheceu o esporte por meio de uma amiga da escola e afirma que a mudança foi muito além dos tatames.

“O que mais mudou na minha vida foi a minha comunicação com outras pessoas, meu comportamento e a minha evolução nos estudos, que melhorou bastante”, conta.

Em pouco mais de dois anos de treinos, Giovana também alcançou resultados expressivos. Ela conquistou os títulos de campeã brasileira e campeã mundial pela CBJJO, feitos que considera os momentos mais marcantes da sua trajetória ao lado das graduações.

“Me sinto honrada principalmente por fazer parte de uma equipe tão dedicada, que ajuda várias crianças”, destaca.

Para quem está pensando em começar no esporte, a Giovana deixa um conselho simples: “Treinem bastante, prestem atenção no que o mestre fala e assim o resultado virá rápido”, ensinou. Segundo ela, o apoio dos pais, da família, e da equipe do projeto foi fundamental para chegar até aqui.

No último sábado (4), cerca de 300 alunos participaram da cerimônia de graduação da equipe. Ao todo, 65 atletas trocaram de faixa, em um momento marcado pela emoção de alunos, professores e familiares.

“A graduação simboliza evolução, aprendizado, técnica, foco e determinação”, afirma o mestre Radson.

Desafios

Apesar do crescimento, manter um projeto dessa dimensão ainda é um desafio. A equipe conta atualmente com quatro mestres e sete professores voluntários distribuídos pelos polos.

A organização também trabalha para concluir a formalização da ONG, o que permitirá captar recursos e ampliar as atividades.

Mesmo diante das dificuldades, Radson não pensa em diminuir o ritmo.

“Temos muitas dificuldades, mas nenhuma delas vai nos parar. Temos ciência que para manter um projeto assim, são necessários muitos recursos, e estamos buscando, mas enquanto não temos, seguimos trabalhando”, pontua.

O sonho agora é ainda maior: ampliar a atuação para 30 polos e atender cerca de 5 mil alunos.

“O esporte transforma, resgata e salva crianças. O mundo seria muito melhor se políticos, empresas e instituições investissem no esporte.

Temos uma ambição boa, estamos caminhando bem. Não tenho dúvidas que dará certo”, finaliza.

Fonte: Enfoco.

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