João Drumond costuma dizer que nunca sonhou em liderar. Diferentemente de quem passa a vida traçando metas para ocupar cargos de destaque, ele afirma que sua trajetória foi sendo construída aos poucos, guiada pelas responsabilidades que surgiram pelo caminho.
Foi assim na Imperatriz Leopoldinense. Em um dos períodos mais delicados da história recente da escola, entre os impactos da pandemia e o retorno ao Grupo Especial, João viu a necessidade de assumir um papel mais ativo.
Sem perceber, tornou-se uma das vozes de uma nova geração dentro do Carnaval. “Eu nunca imaginei ocupar uma posição de tomada de decisão.
Foi uma construção natural. A vida foi me levando para caminhos que eu não imaginava trilhar.”
Hoje, aos 24 anos, ele ocupa a vice-presidência da escola e também integra a diretoria financeira da Liesa. Mas, para quem convive com ele, os cargos parecem dizer menos sobre sua história do que a forma como circula pelos lugares onde atua.
O território como ponto de encontro
Na quadra da Imperatriz, João é chamado pelo nome, abraçado por componentes antigos e tratado como alguém que cresceu diante dos olhos da comunidade. A mesma cena se repete em muitos espaços do Complexo do Alemão.
Embora não tenha nascido no território, ele fala sobre a região com o sentimento de quem encontrou ali um lugar de pertencimento. “Eu me sinto abraçado.
Me sinto em casa”.
Ao longo dos últimos anos, caminhou por ruas, participou de eventos comunitários, visitou projetos sociais e ouviu histórias de moradores. Ele conta que o que mais o marcou não foram apenas as dificuldades enfrentadas pela população, mas a capacidade de encontrar alegria em meio aos desafios.
“Existe uma felicidade no cotidiano que quem olha de fora não consegue enxergar. É a alegria no bar da esquina, na conversa com os vizinhos, na vida da comunidade.”
Para ele, uma das maiores injustiças enfrentadas pelos moradores é a forma como o Complexo do Alemão ainda é retratado para o restante da cidade.
Muito além dos estereótipos
E quando o assunto é juventude, João Drumond costuma voltar ao mesmo ponto, o potencial das periferias. Ele acredita que a favela ainda é vista através de uma lente limitada, que enxerga problemas, mas ignora talentos.
“As comunidades são grandes celeiros de talentos. O que mais existe é jovem com capacidade, inteligência e vontade de vencer.”
Na sua visão, o desafio está em romper barreiras históricas de acesso à educação, à qualificação profissional e às oportunidades. Para ele, os jovens das periferias não precisam de caridade.
Precisam de portas abertas.
Onde a política pública não chega
O envolvimento com projetos sociais começou cedo. Ainda muito jovem, João participou de campanhas de arrecadação de alimentos e ações voltadas para famílias em situação de vulnerabilidade.
O trabalho cresceu ao longo dos anos e hoje encontra um de seus principais símbolos no Instituto Imperatriz. No espaço, milhares de crianças, adolescentes e adultos participam de atividades esportivas, culturais e educacionais.
Para ele, iniciativas como essas não substituem o papel do Estado, mas ajudam a preencher vazios deixados pela ausência de políticas públicas. “O ideal seria que não precisássemos de projetos sociais.
O ideal seria que as políticas públicas funcionassem plenamente. Mas enquanto isso não acontece, esses projetos mudam vidas.”
A fala reflete uma convicção construída na prática, a de que a transformação social acontece quando oportunidades chegam antes que a exclusão ocupe esse espaço.
Cultura, empreendedorismo e desenvolvimento
Ao falar sobre o futuro, João Drumond destaca três temas que considera fundamentais para o desenvolvimento das comunidades: cultura, empreendedorismo e inclusão social.
Defensor da valorização da cultura popular, ele acredita que manifestações culturais precisam deixar de ser vistas apenas como entretenimento e passar a ser reconhecidas como motores econômicos. “O Carnaval gera emprego, renda e movimenta uma enorme cadeia produtiva”.
Outro tema recorrente que ele defende é o empreendedorismo. Durante suas caminhadas pelo Complexo do Alemão, ele diz encontrar diariamente exemplos de criatividade e superação.
São comerciantes, prestadores de serviço, cozinheiros, costureiras e pequenos empresários que movimentam a economia local muitas vezes sem acesso aos recursos necessários para crescer. “O potencial econômico das comunidades é enorme.
O que falta é incentivo, qualificação e oportunidade”.
Os desafios que ainda permanecem
Apesar do olhar otimista, João não ignora os problemas que continuam fazendo parte da rotina dos moradores. Questões como saneamento básico precário, áreas de risco, descarte irregular de lixo e problemas causados pelas chuvas aparecem frequentemente em suas visitas pelo território.
Para ele, a repetição desses desafios ao longo dos anos mostra que algumas demandas urgentes ainda não receberam a atenção necessária. “Não é possível que as pessoas continuem convivendo com problemas que comprometem sua dignidade e sua qualidade de vida.”
Mais do que apontar dificuldades, ele acredita que é preciso construir soluções permanentes para regiões historicamente negligenciadas.
O legado que deseja deixar
Quando a conversa chega ao futuro, a resposta vem carregada de significado. João não fala sobre cargos ou títulos.
Ele fala sobre marcas e legado. Sobre escolas construídas, oportunidades criadas, projetos fortalecidos e vidas transformadas.
Ele lembra que cresceu observando o legado deixado por lideranças que ajudaram a construir a história da Imperatriz e das comunidades do Rio. Agora, sonha em deixar sua própria contribuição.
“Daqui a cinquenta anos, eu espero que as pessoas possam olhar para alguma transformação importante e lembrar que eu ajudei a tornar aquilo possível.”
Entre o samba, os projetos sociais e a vida pública, João Drumond segue construindo uma trajetória marcada pelo contato direto com as pessoas. Uma caminhada que começou muito antes dos holofotes e que, segundo ele, continua sendo guiada pela mesma motivação, a de fazer diferença na vida de quem mais precisa.
Fonte: Vozdascomunidades.
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