A experiência do museu no Rio de Janeiro que tornou seu planetário acessível para cegos e surdos
Museus de ciência costumam afirmar que são espaços para todos. Mas o que significa, no dia a dia, garantir que todas as pessoas, incluindo surdos e cegos, possam participar das experiências oferecidas?
A resposta parece simples até chegarmos a alguns dos ambientes mais emblemáticos da divulgação científica. É o caso dos planetários.
Construídos para projetar imagens do céu em grandes cúpulas, esses espaços dependem fortemente da visão para apresentar conceitos sobre estrelas, planetas e galáxias. E já pensou como torná-los acessíveis também para pessoas cegas?
E como acolher visitantes surdos que dependem de luz para se comunicar na Língua Brasileira de Sinais (Libras)? Essas perguntas têm nos orientado, ao longo da última década, em uma série de iniciativas desenvolvidas no Museu Ciência e Vida, localizado no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Quando a luz precisou ser tocada Nossas reflexões sobre esse aspecto de um museu realmente acessível começaram em 2015. Foi durante o Ano Internacional da Luz e das Tecnologias Baseadas em Luz, promovido pela Unesco.
Inspirada pela temática, a equipe do museu decidiu enfrentar um desafio aparentemente contraditório: apresentar luz a pessoas com deficiência visual A oportunidade surgiu com a exposição Luz ao Alcance das Mãos, desenvolvida por pesquisadores da USP e da Unesp. A mostra transformava conceitos tradicionalmente visuais da física em experiências táteis.
Fenômenos como o efeito fotoelétrico e a dualidade onda-partícula da luz eram apresentados por meio de painéis que podiam ser explorados pelas mãos dos visitantes. Mais do que tornar uma exposição acessível, a iniciativa provocou uma mudança em nossas percepções e perspectiva.
Se pessoas cegas e com baixa visão passariam a frequentar o museu com mais frequência, especialmente em visitas escolares, seria necessário repensar outros espaços da instituição e incluir também os surdos. Foi nesse contexto que surgiu um novo desafio: tornar acessível também o planetário.
Como explicar o céu sem recorrer à visão? A astronomia é frequentemente descrita como uma ciência da observação.
Fotografias de galáxias, mapas celestes e imagens de telescópios ocupam papel central tanto na pesquisa quanto na divulgação científica. Para visitantes cegos, no entanto, essa abordagem apresenta limitações evidentes.
A solução encontrada foi desenvolver recursos capazes de traduzir conceitos astronômicos para outras formas de percepção. Nasceu assim o projeto O Essencial é Invisível aos Olhos, voltado à criação de sessões acessíveis para pessoas com deficiência visual.
Tudo mudou ao incorporarmos modelos táteis às atividades do museu. Com isso, conseguir representar constelações, movimentos aparentes do céu, características dos planetas e diferenças entre estrelas.
Além disso, incluímos também recursos sonoros que complementavam a experiência. Nesse ambiente acolhedor, valorizamos conceitos tradicionalmente abstratos para que fossem vivenciados por meio do tato e da audição.
Ao longo dos anos, os materiais evoluíram. Modelos inicialmente produzidos de forma artesanal deram lugar a peças impressas em 3D.
Estabelecemos uma parceria com designers da Fundação Cecierj para o desenvolvimento desses modelos. Em diferentes etapas, pessoas cegas e com baixa visão participaram da avaliação dos materiais, contribuindo para seu aperfeiçoamento.
O processo trouxe uma lição importante: acessibilidade não é algo que se constrói para um público, mas com ele. Nada para nós, sem nós.
Quando a visualidade se torna uma vantagem Os desafios relacionados à acessibilidade não se restringiram às pessoas com deficiência visual. Ao longo dos anos, o museu também ampliou suas ações voltadas à comunidade surda, em parceria com pesquisadores, intérpretes e instituições especializadas.
Nesse caso, a experiência revelou uma situação curiosa. Enquanto a ausência da visão exigia adaptações para alguns visitantes, a forte presença de elementos visuais no planetário representava uma vantagem para outros.
A Libras é uma língua visual-espacial. Sua estrutura depende da percepção de movimentos, expressões faciais e organização espacial das informações.
Nesse sentido, a imersão proporcionada pela projeção em cúpula dialoga diretamente com formas de comunicação e construção de conhecimento presentes na comunidade surda. Porém, como nada é fácil, surgiu um obstáculo significativo.
As sessões de planetário acontecem em ambientes escuros, condição necessária para a observação das projeções. Essa característica dificulta a visualização dos sinais, comprometendo aspectos fundamentais da comunicação em Libras.
Um planetário em Libras As primeiras experiências envolveram visitas de grupos de surdos acompanhados por intérpretes e educadores especializados. Aos poucos, foram sendo construídas metodologias específicas para a mediação dos conteúdos astronômicos.
Uma das dificuldades encontradas foi a própria linguagem científica. Muitos conceitos da astronomia, assim como vários outros termos científicos, ainda não possuem sinais específicos.
Importante esclarecer que a linguagem para surdos é construída em sinais. Quando não há um sinal para exemplificar um conceito, o intérprete precisa soletrar com o alfabeto manual.
Outro problema enfrentado pela comunidade surda é que nem todos os sinais científicos são amplamente difundidos em Libras. E outros sinais apresentam diferentes versões utilizadas por comunidades surdas de distintas regiões do país.
A necessidade de tornar o conteúdo acessível levou-nos então à construção de um sinalário em vídeo específico para as sessões. A curadoria para a construção desse sinalário foi elaborado a partir do diálogo entre educadores, intérpretes e pessoas surdas.
Nesse processo, optamos por aqueles que apresentavam uma leitura mais imediata das características visuais dos objetos mais destacadas na nossa projeção e que fossem mais usados no estado do Rio de Janeiro. Esse trabalho ganhou novo impulso com a contratação de um mediador surdo para criar roteiros e implantar metodologias que culminaram na criação de sessões de planetário mediadas integralmente em Libras.
Em 2026, esse processo resultou na estreia de uma sessão fulldome acessível, que apresenta os planetas do Sistema Solar por meio de uma viagem espacial imersiva. Durante a sessão, os planetas do Sistema Solar são apresentados a partir de uma viagem de foguete, saindo da Terra.
O conteúdo pode ser acompanhado tanto por usuários de Libras quanto por ouvintes, ampliando as possibilidades de participação do público. Acessibilidade como transformação institucional A trajetória do Museu Ciência e Vida mostra que a acessibilidade não pode ser entendida como um conjunto de adaptações pontuais ou soluções técnicas aplicadas ao final de um projeto.
Ela exige mudanças na forma como as instituições concebem seus públicos, planejam suas atividades e constroem seus processos educativos. Mais do que permitir a entrada de pessoas com deficiência nos espaços de divulgação científica, a acessibilidade transforma a própria maneira de comunicar ciência.
Obriga educadores, pesquisadores e mediadores a repensar conceitos aparentemente simples, questionar formatos tradicionais e buscar novas linguagens para compartilhar conhecimento. O resultado é um ganho coletivo.
E para esse ganho coletivo foi fundamental o apoio e fomento de agências brasileiras como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj). Sem os quais, não teríamos conseguido alcançar essa inclusão verdadeira.
Quando um museu se torna mais acessível para pessoas cegas, surdas ou autistas, ele também se torna mais acolhedor, criativo e compreensível para todos os demais visitantes. Afinal, se a ciência busca compreender a diversidade do mundo, seus espaços de divulgação precisam refletir essa mesma diversidade.
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Fonte: Diariodoporto.
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