“(…) é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo.” João Guimarães Rosa — Campo Geral “Mas crianças com bocas de fome, ávidas, ressuscitaram a vida brincando anzóis nas correntezas profundas.
E os sonhos, submersos e disformes avolumaram-se engrandecidos, anelando-se uns aos outros pulsaram como sangue-raiz nas veias ressecadas de um novo mundo.” Conceição Evaristo — Os sonhos UNIDOS DE VILA ISABEL CARNAVAL 2027 1 – A memória ancestral da PEDRA Atravessei o tempo como se caminhasse sobre as águas de um rio bravo.
Posso cantar, sozinha: “Santa Rita Pescadeira, cadê meu anzol? Cadê meu anzol?
Que fui pescar no mar.” Passei a vagar sem rumo, não conto o tempo.
Sou uma velha encantada, muito antiga, que acompanhou esse povo desde a sua chegada das Minas, do Recôncavo, da África. Guardo memórias familiares que, soterradas pela poeira deste mesmo esfumado tempo, são parte da ancestralidade que nos foi negada.
Arrancada. Por isso, então, me abriguei em muitos corpos, tantos, desde que a gente enfrentou o breu, percorreu matas e rios, adentrou serras e lagoas.
Desde que a cobiça cavou buracos, aos trapos, bambúrrios, e o povo se embrenhou no chão, tatus, buscando a PEDRA brilhante. Nas tocas da escuridão, em pedaços, viam o brilho mudar de lugar: facho de luz e estrela, faísca.
Visagens! Abriam fendas e rezavam para que a luz revelasse o desejo.
Como já disse o outro, sábio, “o diamante, que não encontrado ainda, pertence a todos.” Pois a PEDRA é que escolhia, ria, o dia e o dedo certeiros — questão de sorte?
A PEDRA cantava. Recorriam à magia para desencabojar.
O diamante se tornou um enorme feitiço… Mas a maioria só encontrava, às mãos dilaceradas, a quimera e a loucura. 2 – Da Fazenda Caxangá aos caminhos de Água Negra: a TERRA Meu povo seguiu rumando de um canto para outro, procurando trabalho.
Buscando TERRA e morada. Um lugar onde pudesse plantar e colher.
Onde tivesse uma tapera para chamar de casa. O diamante já não atraía tanta gente e só restaram as TERRAS de Água Negra, uma porção de mundo entre dois rios, formando uma fértil ilha na Chapada Diamantina.
O lugar onde escorriam o suor do dendê, a massa do buriti, o mel das abelhas zelosas. Pegar a enxada!
Tinha dias em que o sol parecia uma fogueira de cabeça para baixo — no caminho das roças, na beira do Utinga e do Santo Antônio. Zeca Chapéu Grande, filho de Donana (que tinha fama de ser feiticeira, porque o mato incendiava), nasceu em uma plantação de cana, na Fazenda Caxangá.
Herdou a sina da mãe — a missão de curar os males, aprendida na mata, bebendo do caule a loucura, debaixo de um jatobá. Obrigação.
Não se pode fugir tranquilo se existe um destino traçado: uma onça o protegia, como se cria fosse, antes que fosse versado nas artes do encantamento — no Lajedo, o banho perfumoso das ervas. Curado, caminhou para Água Negra, a TERRA onde toda uma geração de filhos de trabalhadores haveria de nascer.
Haveria, ainda, de haver direitos? Caminhou… na companhia dos encantados.
3 – As FORÇAS da FÉ, BRINCADEIRAS de JARÊ Em Água Negra, ergueu a casa de barro. A família aumentava e as suas filhas corriam, quase que livres, segurando bonecas de milho, nas noites das brincadeiras.
Brincadeiras de JARÊ! No bailar do terreiro, varavam as madrugadas e aprendiam as lições dos santos: comer caruru com a mão é desvendar a riqueza da infância!
Os objetos, as raízes, as rezas, os encantados que domavam os corpos, tudo isso era parte da paisagem do mundo. “Ê, Santa Bárbara!”
Sob a proteção do Velho Nagô, aquele que nunca abandonou a caminhada, Zeca Chapéu Grande, agora um afamado curador, tocou as cantorias, no JARÊ que girava unido. Da fé que fazia festa, o meu povo comungava.
Cavalgava. São Sebastião, a devoção dos atabaques — que traziam, à luz do lampião, todo o peji da casa: Mineiro, Mãe d’Água, Ventania, Sete-Serra, Iansã, Marinheiro, Nadador, Ogum, Oxóssi, Cosme e Damião, Tupinambá, Tomba-Morro, Pombo Roxo, Nanã… E eu, uma encantada esquecida, cansada de opressão e morte, que apareci no JARÊ de Zeca depois de muito, muito vagar.
Eis um ritual antigo, pergunta sem resposta, que vibrava naquela fazenda cujas casas nasciam da lama e eram cobertas de junco — e que aos poucos se desfaziam por efeito do implacável tempo. Apareci entre raios e flechas, disposta a atirar a rede, cair em chuva, atiçar a brasa.
Marca esculpida na rocha, pés plantados na terra, entre velas e tambores, no oco. 4 – Rio de sangue: a LUTA Então um rio vermelho desatou a correr em fúria.
Guizo de cascavel, posição de ataque. Uma história que se repete — muitas, mais de mil vezes.
Violenta e rebelde, afiada. Cortante feito o corriqueiro gesto, no ser-tão sobrevivente, de picar miudinho a palma.
Sem remédio, sem justiça, sem-terra — até quando? Bibiana e Belonísia, filhas do curador, seguiram os seus caminhos, em meio a tanta revolta.
Unidas numa mesma língua, misto de silêncio e voz. Recosturando a vida, ante horizontes maiores.
Depois da despedida do pai, uma nova realidade: o sopro da liberdade balançava o campo! Bibiana, professora — a leitura transmutada em LUTA; Belonísia, profetiza — a mata a fez forte e sensível, ainda menina, para reconhecer o movimento do mundo.
As veredas, as cercas, os rios, os buritizeiros, tudo foi irrigado pelo sangue de quem lutou (e LUTA) pelo direito fundamental à terra. O sonho de Severo, casa de alvenaria.
O trançar de Maria Cabocla: suturas. LUTA!
Saberes não solapados pelas rodas da carruagem — engrenagem de um engenho arcaico, arado torto, troncho, que tentou (e tenta) desencantar o mundo, com mãos de grilhões e dragas, às covas rasas. Carruagem de fogo a correr pela estrada!
Foi Salu, a mãe delas, quem disse, corajosa: “Fui parida, mas também pari esta terra. Esta terra mora em mim!
Brotou em mim e enraizou. Aqui!”
5 – A LUTA CONTINUA… e PULSA QUILOMBOLA O cenário de que falo, onde correm rios de água escura e o peito retumba no ritmo da terra, é a fiel fotopintura de um Brasil de coração sem medo. De uma gente de batalha e festa, cujas mãos também são sementes — cura e doçura da Terra: QUILOMBO, escola, samba.
Samba de rio, saia de chita. Samba de roda, que gira-Jarê.
Não mais as construções chorosas, sem tijolos, sem telhados. Não mais entregar à força o alimento colhido e plantado.
Não mais o extenuante trabalho que ainda ecoa um passado infame. Mas a fundação de um lugar estável onde o riso e a luta, Remanso e luna, possam cultivar a vida que explode, bela, em borboletas amarelas.
Os frutos repartidos, a mesa farta. “Somos QUILOMBOLAS!”
São os descendentes daquelas mulheres de lágrimas insubmissas, como o jovem estudante Inácio (e tantos outros filhos e filhas que delas herdam a bravura), que bordam na terra quente o amor e a coragem que pulsam — a luta não acabou, a história continua. História que, passo a passo, é uma saga QUILOMBOLA.
Eu, testemunha oculta, desenrolo o tempo da prosa e conto a trama do avesso. A rede é
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Fonte: Carnavalesco.
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