Personagens da mitologia futebolística atravessam o caminho da seleção brasileira diante do desafio de arrancar no mata-mata da Copa
Ele ocupa lugar cativo entre os tipos folclóricos do futebol. O que seria das resenhas sem o famigerado jogador de segundo tempo?
Não encontramos equivalência noutra modalidade. Alguém conhece um atleta de segundo set no vôlei ou de terceiro quarto no basquete?
Já no mundo dos gramados é figura carimbada. Basta jogar duas ou três vezes melhor quando entra no decorrer da partida do que de início para o coitado receber tal estigma.
Uma maldição pegajosa.
“Tem jeito, não. Esse aí só rende no segundo tempo”, decreta o torcedor impaciente.
O carimbo ronda Luiz Henrique.
A primeira etapa apagada no amistoso contra o Panamá, penúltimo antes da Copa, foi o suficiente para condenar à reserva o atacante mais próximo ao feitio de Estêvão, cortado por lesão. O ex-atacante do Botafogo, cria de Xerém, larga atrás do vigoroso Rayan e do elétrico Endrick, xodó da galera, na corrida à vaga de Raphinha, novamente traído pelo músculo.
Não é raro o acaso ajeitar escalações, inclusive em Mundiais. Mas convém não exigi-lo além da conta.
Correções de curso frequentemente implicam coragem para renunciar a convicções em rota de colisão com realidade. Para evitar a armadilha, Ancelotti encara a possibilidade de barrar um de seus homens de confiança.
Eis mais um clichê da mitologia boleira. Geralmente é evocado para justificar a hora extra de um titular assombrado pela decadência.
Nunca é fácil precisar, sobretudo num grande jogador, até que ponto liderança, experiência, lealdade compensam o declínio esportivo.
O vitorioso técnico confronta-se com o dilema de manter ou não manter o tarimbado Casemiro em confrontos de alta intensidade. Tamanha confiança pode custar caro num torneio tão competitivo.
Imunidade semelhante enverga o próprio mister. A referência à origem estrangeira do treinador não é mera modinha importada pelos trópicos.
Representa um status à beira do título honorífico.
O selo internacional confere ao seu detentor quase um salvo-conduto por tempo generoso: contraste à pressa com a qual costumamos cobrar rendimentos idealizados. Talvez seja só um peculiar sintoma da relatividade temporal comprovada por Einstein.
A benevolênia com o mister revela-se materna. Até a velha tática do mistério esquiva-se fácil das habituais críticas, como se, revestida de grife, fizesse alguma diferença.
Torçamos para que o comandante consolide um Brasil que se imponha no mata-mata, e o cristal continue intacto. Roguemos aos deuses da bola para que reencontremos o encanto, o protagonismo e o prestígio de um mister.
O carregador e o solista
Não falta também à seleção o carregador de piano, outro personagem secular até nos melhores escretes. Discreto e polivalente, Bruno Guimarães honra a tradição.
A orquestra ficaria mais afinada se o solista Vini Jr. estivesse acompanhado de um maestro.
Encontrá-lo é o principal dever de casa para 2030.
Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física.
Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.
Fonte: VEJA RIO.
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