O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) converteu a recente decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas em plataforma central de sua pré-campanha à Presidência da República em 2026. O anúncio do parlamentar ocorreu após agenda com o ex-presidente estadunidense Donald Trump.
Contudo, o movimento retórico tensiona-se com a realidade material: a trajetória da família Bolsonaro no Rio de Janeiro acumula episódios de proximidade estreita com figuras investigadas por chefiar milícias, esquemas de desvio de renda e crime organizado.
Em resposta às críticas, a assessoria do senador emitiu nota negando vínculos com facções e atacando o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), citando agendas de pessoas ligadas ao crime no Ministério da Justiça. Todavia, os dados documentais do Ministério Público fluminense expõem uma cadeia de conexões que desidrata o discurso de legalidade abstrata defendido pelo clã.
A economia política das milícias e as honrarias na Alerj
O elo mais documentado da simbiose institucional reside na figura do ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como liderança da milícia de Rio das Pedras e do consórcio de matadores Escritório do Crime. Em 2005, mesmo encarcerado, Adriano recebeu a Medalha Tiradentes por iniciativa de Flávio Bolsonaro, com o endosso ativo de Jair Bolsonaro.
Dois anos antes, o miliciano já havia sido laureado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
A relação ultrapassou a esfera simbólica e penetrou a estrutura financeira do gabinete parlamentar. Durante o monitoramento do esquema de apropriação de salários, conhecido popularmente como “rachadinha”, constatou-se que a mãe e a ex-esposa de Adriano constavam como assessoras oficiais de Flávio.
Investigações apontaram repasses financeiros cruzados operados por Fabrício Queiroz, apontado como operador financeiro do grupo. O caso foi encerrado após o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) invalidarem as provas em 2021.
Abaixo, os episódios de blindagem ideológica e aproximação com investigados:
Alianças espúrias e o financiamento do capital político
A permeabilidade da bancada bolsonarista com redes ilícitas expandiu-se nos anos subsequentes. A aproximação com Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, ilustra o pragmatismo das alianças regionais.
Bacellar tornou-se alvo de apurações por suposto vazamento de informações sigilosas para beneficiar o Comando Vermelho. Da mesma forma, captações de áudio flagraram tratativas entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por crimes financeiros no Banco Master, com o intuito de viabilizar o financiamento privado de uma peça audiovisual sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
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Discursos apologéticos: Em 2018, Jair Bolsonaro minimizou a violência em áreas controladas por milícias; Flávio definiu tais grupos como uma “nova forma de policiamento”.
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Prisões de campanha: Na Operação Quarto Elemento, os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, ativos na campanha de Flávio, foram presos por extorsão.
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Seletividade penal: A catalogação de facções como terroristas visa o ganho eleitoral, encobrindo a dependência mútua entre o poder político tradicional e as estruturas paramilitares urbanas.
O debate sobre segurança pública converge, portanto, para uma disputa de narrativas profundas. Enquanto a extrema-direita utiliza o espantalho do terrorismo internacional para blindar sua agenda punitivista, o histórico factual reafirma que as engrenagens do poder no Rio de Janeiro alimentam-se de alianças sistemáticas com a ilegalidade, subvertendo o conceito de soberania estatal em prol da reprodução do capital político e financeiro privado.
Fonte: Diariocarioca.
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