Política RJ

Francis Kéré: “A função da arquitetura é dar forma aos sonhos”


Detentor do prêmio Pritzker, o arquiteto africano esteve no Rio para uma série de visitas técnicas a fim de detalhar o projeto da Biblioteca dos Saberes

Nativo de Gando, uma vila em Burkina Faso, na África Ocidental, Francis Kéré cresceu com poucos recursos e muitos desafios. Filho mais velho do chefe da aldeia, foi o primeiro de sua comunidade a frequentar uma instituição de ensino — uma viagem diária que levava cerca de 40 quilômetros.

O ambiente opressor, com salas de aula escuras e quentes, acabou virando inspiração.

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Depois de se mudar em 1985 para Berlim, onde estudou carpintaria e arquitetura, decidiu reinvestir o conhecimento na construção de uma nova escola em sua terra natal. A abordagem humanista, sustentável e participativa, com materiais e técnicas tradicionais, passou a caracterizar seu trabalho e lhe rendeu, em 2022, a honraria de se tornar o primeiro arquiteto negro a vencer o prêmio Pritzker, considerado o Nobel do segmento.

Com pavilhões e instalações na Alemanha, Itália, Dinamarca, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos, é ele quem assina o que promete se tornar um dos principais equipamentos culturais do Rio nas próximas décadas. A convite da Prefeitura, desenvolveu o projeto da Biblioteca dos Saberes, sua primeira obra na América Latina, parte da iniciativa Praça Onze Maravilha.

A instituição, que ainda não tem uma data oficial de inauguração divulgada, ocupará a Pequena África, junto ao Sambódromo, articulando passado e futuro em uma região marcada pela força da cultura popular, e terá mais de 40000 metros quadrados dedicados a memória, conhecimento, expressões populares e biodiversidade, reunindo teatro, salas de estudo, áreas expositivas e um jardim suspenso.

Na última semana, Kéré esteve na cidade para conhecer os profissionais locais que farão parte do projeto — incluindo o arquiteto Miguel Pinto Guimarães, cujo escritório será responsável pelo desenvolvimento — e concedeu uma entrevista à VEJA RIO, na qual adiantou detalhes e frisou a verdadeira vocação que deve ter a arquitetura.

Qual o principal objetivo da Biblioteca dos Saberes? Quero criar um espaço capaz de conectar áreas como a Pequena África e a região próxima à Praça da Apoteose e ao Sambódromo.

A ideia é atrair tanto os moradores do entorno quanto pessoas de outras partes da cidade, incentivando a convivência e a liberdade de expressão em um ambiente acolhedor.

Temos uma tradição modernista muito forte. Pretende dialogar com isso?

Tenho enorme respeito e admiração pela tradição, embora esse legado possa intimidar quem projeta aqui. Como africano, sinto uma conexão muito forte.

Vejo o oceano não como uma separação, mas como um elo que manteve vivas tantas heranças africanas no país. Quero unir tudo de melhor que o Brasil possui — arquitetura, diversidade cultural e mistura de influências — à minha visão de mundo.

O Rio é marcado por contrastes sociais visíveis. Como ajudar a diminuir essas distâncias?

Percebo que aqui diferentes territórios convivem de forma muito próxima, e quis aprender com isso. O projeto foi pensado de forma aberta e acessível, para funcionar como uma extensão da cidade.

Crianças poderão ler na biblioteca enquanto familiares acompanham rodas de capoeira. O paisagismo também terá papel central, conduzindo percursos abertos até uma área de convivência no topo.

Quais aspectos tornam um espaço acolhedor para os habitantes? Independentemente do clima ou dos recursos disponíveis, conforto, flexibilidade e abertura geram pertencimento e apropriação do lugar ó que pode servir para estudo, encontros, celebrações ou até apoio em momentos de crise.

O mais importante é acompanhar as necessidades locais. Assim, esses ambientes podem ser catalisadores do desenvolvimento social.

Como a infância em Gando norteou o seu trabalho? Cresci em uma vila marcada pela escassez e sem escola, por isso precisei me mudar ainda criança para estudar.

As salas de aula eram escuras e muito quentes, mesmo com tanta luz do lado de fora, e isso me despertou o desejo de criar lugares melhores e inspiradores. O forte senso de comunidade de Gando também moldou minha visão da arquitetura como ferramenta de transformação social.

O senhor costuma dizer que a arquitetura deve ser sobre pessoas, não sobre objetos. Como isso se traduz na prática?

Quando nos perguntamos para quem estamos construindo, a resposta é sempre a mesma: para as pessoas. O processo deve começar na escuta e na tradução disso em desenhos.

A função da arquitetura é dar forma aos sonhos. Como o Rio te inspirou?

Gosto de observar como cada povo ocupa os espaços e se relaciona com a cidade. Também procuro aprender com os grandes arquitetos que vieram antes de nós e entender como eles responderam ao clima e à cultura local.

Quero absorver a energia do samba, da coletividade e da identidade brasileira para representá-la e compartilhá-la com o mundo.

Quais pontos daqui mais te impressionaram? Uma das primeiras visitas que fiz foi ao Jardim Botânico e fiquei impressionado com a biodiversidade e a conexão com a natureza.

Conheci o Cristo Redentor e me marcou muito observar do alto, percebendo a relação entre o mar, os morros e os diferentes bairros. Fui ao Boulevard Olímpico, ao Museu do Amanhã, ao MAM e a comunidades com projetos urbanos recentes voltados para a convivência coletiva.

Ainda estive na Pequena África ao lado da escritora Conceição Evaristo — que depois me visitou em Berlim.

O que sentiu neste endereço que tanto dialoga com as suas raízes? A experiência aprofundou ainda mais minha conexão com a história e a cultura do Rio.

Participei de encontros com pessoas ligadas à região e, em uma ocasião, saímos de uma roda de samba para a Marquês de Sapucaí. Foi uma experiência muito intensa, marcada pela música e a sensação de pertencimento que o samba cria.

Tudo isso me ajudou a desenvolver algo mais assertivo para a comunidade — da qual agora faço parte, porque sinto que me tornei um carioca.

Fonte: VEJA RIO.

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