Cultura e Carnaval

Na contramão da machosfera, discurso de ódio entra no centro do debate


A denúncia só seria registrada semanas depois, no último dia 13, porque a garota teve vergonha de falar à família sobre a crueldade da qual foi alvo. Mais do que um crime brutal, o caso joga luz sobre um ambiente digital em que a exposição da vítima, o desprezo pelas mulheres e a glorificação da violência vem se naturalizando, sobretudo entre adolescentes.

Não por acaso, o debate sobre masculinidade ganhou urgência e será abordado em painéis diversos durante o Rio2C, maior evento de criatividade da América Latina, entre 26 e 31 de maio, na Cidade das Artes. “A ideia é trazer à mesa novos caminhos para as narrativas masculinas no cinema, na TV e no entretenimento”, explica Rafael Lazarini, CEO do mega encontro.

“Estamos fazendo uma provocação aos criadores repensarem o impacto de suas obras”, diz. Entre os destaques da programação está o painel “I Don’t Wanna Be a Macho Man”: Masculinidades em Cena, que reúne, em 31 de maio, os atores Eduardo Moscovis e Ícaro Silva e o jornalista Ismael dos Anjos para discutir os nocivos modelos que hoje reverberam especialmente nas redes.

Nos últimos anos, a chamada machosfera, comunidade on-line que propaga a dominação masculina e o ódio à ala feminina, ganhou mais adeptos, configurando uma marcha a ré em relação ao conjunto de conquistas que afasta a sociedade da intolerância e do preconceito. O relatório “Aprenda a evitar esse tipo de mulher”: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube, do NetLab da UFRJ, identificou em 2024 nada menos que 137 canais veiculando conteúdo que dava voz ao ódio às mulheres no Brasil.

Uma atualização do estudo, divulgada em março, mostra que 123 seguem ativos e operantes na plataforma. O discreto recuo, porém, não significa nem de longe que o fenômeno tenha perdido impulso: o número de inscritos nesse sombrio universo, afinal, subiu de 18,5 milhões para 23 milhões, e os vídeos publicados saltaram de 105 000 para 130 000.

“Influenciadores têm lucrado com essas manifestações, cooptando jovens muitas vezes fragilizados, em crise de identidade”, observa a psicóloga Valeska Zanello, da Universidade de Brasília e referência em saúde mental e gênero, que enfatiza: a recém aprovada lei de criminalização da misoginia deve barrar toda e qualquer iniciativa de enquadrar esse tipo de absurdo no escaninho da liberdade de expressão. + Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui O raio de influência dessa crescente turma que compõe a machosfera extravasa, e muito, as telas.

Já está bem estabelecido o elo entre a circulação de conteúdos misóginos e episódios de violência praticados por jovens contra mulheres. Em março, um dos acusados do estupro coletivo em Copacabana, Vitor Hugo Oliveira Simonin, então com 18 anos, ao ser preso, chegou à delegacia vestindo uma blusa com os dizeres regret nothing (não se arrependa de nada, em inglês), lema do influenciador britânico Andrew Tate, réu por estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores.

No estado do Rio, de 2021 a 2025, o rol de adolescentes apontados como autores de crimes sexuais engrossou 93%. Só em 2025, 832 menores de 18 anos se tornaram suspeitos de infrações análogas a abusos sexuais — na maior parte das vezes, as vítimas eram meninas.

Os especialistas afirmam que o crescimento de discursos misóginos é uma espécie de backlash (reação forte) ao avanço das mulheres na última década — a lei do feminicídio é de 2015, por exemplo — e que vigora um abismo entre os gêneros. “Os jovens estão sendo criados do mesmo jeito que as gerações anteriores, mas têm de lidar com garotas que não aceitam certos comportamentos”, observa Ismael dos Anjos, 38 anos, jornalista e coordenador do documentário O Silêncio dos Homens, realizado a partir de uma pesquisa que ouviu 47000 deles, disponível no YouTube.

Embora sob um verniz diferente, causou polêmica o anúncio do ator Juliano Cazarré, 45 anos, de que estará à frente de um encontro voltado para a banda masculina chamado O Farol e a Forja. Segundo ele, a ideia é “fortalecer homens enfraquecidos”.

O projeto gerou reações negativas de colegas do meio artístico, como Marjorie Estiano, Elisa Lucinda, Claudia Abreu e Paulo Betti, mas também recebeu o apoio de cantoras como Claudia Leitte e Luiza Possi. A VEJA RIO, Cazarré afirmou: “Nós queremos formar homens melhores”.

Ecoando a crença da machosfera de que elas oprimem eles, o ator chegou a declarar em entrevista recente que “mais mulheres mataram homens do que homens assassinaram mulheres”. A afirmação foi divulgada em vídeo publicado no TikTok no ano passado e já desmentida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Para o publicitário Pedro de Figueiredo, 39 anos, fundador do projeto Memoh (esse para homens com o objetivo de promover a equidade de gênero), movimentos com viés religioso como Legendários e o próprio O Farol e a Forja dão nova roupagem a um problema antigo. “O que se vê é só uma atualização do mecanismo para continuar aproveitando o lugar de privilégio masculino”, pontua o publicitário.

Se a internet é um ambiente no qual se difundem ideologias que pregam o retorno a papéis de gênero do passado, ela tem sido, em paralelo, palco para homens que buscam encontrar outras formas de existir, atentos ao salutar salto das mulheres em décadas recentes. Influenciadores como Thiago Oliveira, do perfil Homem Sem Tabu (@hsemtabu), Guilherme Pallesi (@guipaoficial), o carioca Thiago Queiroz (@thiagoqueiroz) e o fluminense Sergio Carolino (@sergiocarolino) provocam reflexões sobre temas como masculinidade e paternidade, expondo suas dúvidas e vulnerabilidades.

Para além das redes, iniciativas como o já citado projeto Memoh e o Instituto Mapear, ambos do Rio, atuam realizando palestras e consultorias sobre o tema, além de estimular diálogos e até uma “reeducação masculina”, por meio dos chamados grupos reflexivos. No Rio2C, o assunto ainda estará presente nas rodas O Paradoxo do Fracasso, do neurocientista Andrei Mayer, e O Amor Está no Ar: a Nova Comédia Romântica, com a atriz Eliane Giardini e outras convidadas.

No dia 29, será a vez do Festival Masculinidades, parte do MenCare Changemaker Summit, encontro internacional dedicado à discussão da igualdade de gênero e do combate à violência contra as mulheres. Não por acaso, todo esse debate vem incentivando uma releitura de obras de outros tempos.

Ao reprisar tramas antigas, a Globo já fez uso de alertas de gatilho, avisando que o conteúdo a seguir seria de alguma delicadeza, e de cortes em cenas hoje vistas como ofensivas. Em Mulheres Apaixonadas, por exemplo, sequências de violência doméstica protagonizadas por Marcos (personagem de Dan Stulbach) contra Raquel (Helena Ranaldi) foram suavizadas na reprise de 2023, espelhando mudanças no olhar da sociedade sobre comportamentos antes naturalizados na TV aberta.

O ator Eduardo Moscovis, 57 anos, que deu vida a um psicopata na série da Netflix Bom dia,

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Fonte: VEJA RIO.

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