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O túnel secreto enterrado no Centro do Rio que quase ninguém sabe que existe


Bem ali no coração da Baía de Guanabara, a menos de 200 metros do centro histórico do Rio, existe uma ilha que guarda em suas entranhas dois túneis coloniais portugueses, uma cela onde Tiradentes passou três anos esperando a morte, uma fortaleza que mudou de nome quatro vezes e uma história de quatro séculos que começa com cobras venenosas, passa por holandeses invasores e termina numa batalha brancaleônica na Guiana Francesa contra tropas de Napoleão Bonaparte. A Ilha das Cobras, sede da Fortaleza de São José e do Museu do Corpo de Fuzileiros Navais, é um dos sítios históricos mais legais do país, e, pra variar, a grande maioria dos cariocas e simpatizantes jamais pôs os pés lá.

Seus túneis permanecem como lembrança subterrânea de um Rio colonial que viveu cercos, invasões francesas, ameaças holandesas e o trânsito de ouro vindo das Minas Gerais. Em tempos de selfies na Orla Conde e turistas atrás do pôr do sol do Boulevard Olímpico, poucos imaginam que logo ao lado existe um dos mais antigos complexos defensivos militares da História do Brasil.

Mas antes de entrar nos túneis, é preciso entender como aquela ilha virou o que é. A Ilha das Cabras que Virou das Cobras Oficialmente ela ficou conhecida pela Europa em 1579 quando o cartógrafo francês Jacques de Vau de Claye mapeou a Baía de Guanabara e a batizou de “Île des Chèvres”, ou seja, Ilha das Cabras.

E, como você aprendeu na escola ou, quem sabe, já leu por aqui, sabe que os franceses haviam instalado uma colônia no Rio em 1555, conhecida como França Antártica, antes de serem expulsos definitivamente pelos portugueses e os temiminós de Araribóia (não necessariamente nessa ordem) em 1567. No primeiro mapa português da Guanabara, elaborado por Luís Teixeira em 1574, a ilha aparece identificada como Ilha da Madeira.

Menos de vinte anos depois, a propriedade mudou de mão de forma dramática: em 1583, virou propriedade de João Gutierrez Valério, mercador de escravos, que a utilizava como depósito de sua mercadoria. Os monges, as cobras e o batismo definitivo João Valério pagou seus pecados em vida e foi à bancarrota.

Bem feito. Em 1589, a ilha foi adquirida pelos monges do vizinho Mosteiro de São Bento e passou a ser denominada Ilha dos Monges.

Os beneditinos precisavam de um espaço próximo ao mosteiro para atividades agrícolas e de criação de animais, mas o que encontraram na ilha era uma população de cobras que tornava a vida ali consideravelmente mais animada do que o desejado. A crônica beneditina acrescenta uma lenda urbana: depois que a ilha passou a ser propriedade de São Bento, as serpentes teriam começado a se jogar voluntariamente ao mar.

A explicação para o fenômeno permanece em aberto. O que é certo é que o nome pegou e que, ao contrário das serpentes, os beneditinos ficaram por lá por mais algumas décadas, até que as autoridades coloniais perceberam que aquela pedra no meio da baía tinha um valor estratégico que ia muito além da agricultura.

Uma fortaleza com nome de flor Em 1624, o pânico tomou conta da Guanabara com a notícia da queda de Salvador nas mãos dos invasores da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. Temendo que a armada laranja descesse a costa em direção ao Rio, o governador ordenou a construção emergencial e o reforço das estruturas defensivas na Ilha das Cobras, erguendo trincheiras de terra e paliçadas.

Mas os holandeses nunca chegaram. Quinze anos depois, em 1639, a estrutura da fortaleza passou por um amplo processo de reconstrução e ampliação.

Sob a supervisão direta da administração colonial, as antigas paredes de terra batida e madeira foram substituídas por sólidas cortinas de cantaria de pedra para garantir maior durabilidade contra os novos calibres dos canhões navais. E o complexo ganhou novo nome: Fortaleza de Santa Margarida da Ilha das Cobras.

A escolha do nome foi uma homenagem a dona Margarida de Saboia, duquesa de Mântua, que governava Portugal em nome do rei Felipe IV da Espanha durante o período da União Ibérica (1580 a 1640). Tudo bem, mas onde entra o túnel nessa história?

O famoso túnel que corta o subsolo do complexo foi escavado no século XVIII, provavelmente por volta de 1736, quando os três fortes da ilha foram unificados em uma única estrutura defensiva. O túnel principal tem cerca de 100 metros de extensão e segue em linha reta por baixo do pátio central da fortaleza.

Uma de suas extremidades desemboca na galeria de uniformes históricos, enquanto ramificações secundárias se dirigem em direção ao mar e para as antigas celas do presídio. Foi numa dessas celas que Tiradentes passou três anos vendo o sol nascer quadrado antes da leitura de sua condenação à morte pela participação na Conjuração Mineira.

As paredes e abóbadas que sustentam o teto dos túneis possuem espessuras impressionantes que variam entre um metro e meio e mais de dois metros de pura rocha granítica e alvenaria de pedra argamassada. Essa largura colossal era um requisito de segurança indispensável na engenharia do século dezoito para garantir que as galerias aguentassem o impacto direto de bombas francesas ou holandesas, funcionando também como isolante térmico e acústico para os paióis de pólvora que ficavam escondidos no interior profundo do complexo.

Não há registro preciso da data exata da construção do túnel, mas fontes históricas indicam que já no século XVIII ele era utilizado pelas tropas portuguesas para se movimentar protegidas durante ataques inimigos. O historiador e comandante da Marinha, Valdir Gouvêa, responsável pelas visitações, afirma que “há estruturas subterrâneas como essa em vários locais do Rio.

A Ilha das Cobras é apenas uma delas”. O solo sagrado dos fuzileiros navais e uma vitória militar hilariante No contexto da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, a Brigada Real da Marinha, origem do Corpo de Fuzileiros Navais, foi aquartelada na Fortaleza de São José da Ilha das Cobras em 21 de março de 1809, onde se encontra até os nossos dias.

Os fuzileiros chegaram à ilha diretamente de sua primeira grande vitória em batalha, e a fortaleza lhes foi concedida como quartel permanente em reconhecimento dessa façanha. Uma empreitada que, mais uma vez, prova que o se o Brasil não existisse jamais seria inventado.

Dom João fugiu para o Brasil das tropas francesas de Napoleão Bonaparte. Mas mal brotou na área, meteu o brabo e resolveu dar o troco.

Mandou o tenente-coronel Manuel Marques de Alva invadir a Guiana Francesa à frente de 1. 200 homens _ 700 soldados regulares do Exército colonial e 550 fuzileiros navais da Brigada Real da Marinha.

Os defensores franceses, enfraquecidos por anos de bloqueio naval britânico, mal tinham 400 soldados e outros tantos milicianos de confiabilidade incerta, formados em parte pela população preta libertada no território durante o conflito. Como resultado, apesar das fortes fortificações de Cayenne, o território caiu dentro de uma semana e permaneceu sob domínio português até 1817, quando foi devolvida à França pelo Congresso de Viena.

É possível visitar o túnel hoje em dia? Sim, A Fortaleza de São José da Ilha das Cobras encontra-se de portões abertos para o público civil mediante agendamento prévio e visitas guiadas conduzidas pelas equipes culturais da Marinha do Brasil.

O acesso ao sítio

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Fonte: Agenda do Poder.

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