A produção do longa-metragem “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), enfrenta uma escalada de crises após dados oficiais da Agência Nacional do Cinema (Ancine) revelarem que a produtora responsável pela obra, a Go Up Entertainment, nunca lançou nenhum filme no mercado nacional ou internacional. A empresa é de propriedade da jornalista Karina Ferreira da Gama.
O levantamento da agência reguladora aponta que o apagão de lançamentos estende-se às outras duas firmas registradas em nome de Karina: a Go7 Assessoria e o Instituto Conhecer Brasil. Nenhuma delas possui registros de obras veiculadas em salas de cinema, TV aberta ou canais fechados.
Atualmente, tanto a Go7 quanto o Instituto encontram-se com os cadastros suspensos na agência por falta de renovação documental. A Go Up segue regularizada, porém a produção sobre Bolsonaro ainda não foi oficialmente registrada por lá.
Orçamento inflado e financiamento via Texas
O orçamento do filme, estrelado pelo ator norte-americano Jim Caviezel no papel de Bolsonaro e dirigido por Cyrus Nowrasteh, está estimado em US$ 13 milhões (cerca de R$ 65,7 milhões). O valor é considerado astronômico para os padrões brasileiros, superando produções de destaque como Ainda estou aqui (R$ 45 milhões) e O agente secreto (R$ 28 milhões).
Karina justifica a cifra apontando que quase metade do montante foi destinada ao pagamento do elenco internacional, que inclui o ator Esai Morales, além do custo de 36 semanas de filmagem.
De acordo com as apurações, a estrutura financeira do projeto opera da seguinte forma:
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Articulação política: O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitiu publicamente ter atuado na captação de R$ 61 milhões para o projeto junto ao empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
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Aporte internacional: Os valores foram transferidos a partir de março de 2025 por meio de um fundo sediado no Texas (EUA), administrado pelo advogado Paulo Calixto, profissional ligado ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
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Logística de produção: O deputado federal Mario Frias (PL-SP) também atua de forma direta no projeto na condição de produtor-executivo.
A tramitação financeira internacional gerou desdobramentos jurídicos imediatos. Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar barrar o lançamento do filme antes do pleito de 2026, sob a alegação de propaganda eleitoral dissimulada.
Paralelamente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, abriu uma apuração preliminar para averiguar supostas irregularidades em emendas parlamentares destinadas às empresas de Karina, após provocação da deputada Tabata Amaral (PSB-SP).
Escândalo de R$ 16,5 milhões em contratos de Wi-Fi
Se o braço cinematográfico enfrenta turbulências em Brasília, a atuação da proprietária em São Paulo virou alvo do Ministério Público e da Polícia Civil.
O Instituto Conhecer Brasil é detentor de um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo (gestão Ricardo Nunes) para implementar pontos de Wi-Fi gratuito na periferia. Contudo, uma auditoria técnica detectou que a ONG apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em notas e documentos fiscais irregulares em suas prestações de contas.
A contabilidade da ONG apresentou falhas graves de execução tributária:
O pente-fino da Secretaria Municipal de Tecnologia revelou ainda o uso de notas canceladas da JR Feijão Ltda. (mais de R$ 406 mil) e pagamentos duplicados na ordem de R$ 925 mil.
Além disso, a prefeitura localizou inconsistências em um contrato de R$ 12 milhões firmado com a Favela Conectada; o dono da empresa, Alex Leandro Bispo dos Santos, foi preso em fevereiro sob a acusação de feminicídio. No contrato original arquivado no Drive de Karina, o parceiro comercial figurava apenas como “Alex”, sem sobrenome ou CPF.
Karina Ferreira da Gama negou fraudes estruturais e disse desconhecer o cancelamento das notas por parte dos fornecedores. Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo defendeu a lisura do programa Wi-Fi Livre, destacando que as inconsistências de 2024 foram saneadas com a devolução de R$ 930 mil aos cofres públicos pelo instituto, o que viabilizou a manutenção do contrato.
A gestão Nunes também repudiou qualquer tentativa de atrelar o repasse municipal ao financiamento do filme biográfico de Jair Bolsonaro.
Fonte: Diariocarioca.
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