Transporte e Mobilidade

Quando a Praça XV mandava no Brasil: os comerciantes que governavam o Império nos bastidores


Muito antes de Brasília existir, muito antes da Avenida Paulista se tornar símbolo do poder econômico brasileiro, havia um lugar onde praticamente tudo passava pelo crivo dos homens de negócios: a região do Largo do Paço – hoje Praça XV, da antiga Rua Direita, da Rua do Ouvidor e dos cais do porto do Rio de Janeiro.

Era ali, entre embarcações abarrotadas de café, escritórios de negociantes, trapiches e sobrados comerciais, que se articulavam interesses capazes de influenciar os rumos do Império. O Centro Imperial do Rio não era apenas o coração administrativo do Brasil — era o cérebro econômico do país.

Inspirada na tese da historiadora Nívea Silva Vieira, da Universidade Federal Fluminense, intitulada “A Associação Comercial do Rio de Janeiro e o Porto”, esta reportagem mergulha numa época em que comerciantes, armadores, banqueiros e empresários praticamente definiam o futuro da cidade e influenciavam diretamente as políticas públicas nacionais.

“Refletir sobre sua história é repensar todo o conjunto social e estatal que compõe o país”, escreveu a pesquisadora ao analisar o papel da Associação Comercial do Rio de Janeiro ao longo do fim do Império e da Primeira República.

Na prática, a Praça XV funcionava como uma espécie de Wall Street tropical do século XIX. Aliás, acabou no futuro tendo a nossa Bolsa de Valores, finda pós Naji Nahas.

A abertura dos portos por Dom João VI, em 1808, transformou a cidade definitivamente. O Rio passou a concentrar o comércio internacional brasileiro e viu surgir uma elite urbana formada por negociantes, armadores, importadores, banqueiros e empresários que rapidamente se organizaram para defender seus interesses.

Primeiro veio o Corpo do Comércio. Depois, a Sociedade dos Assinantes da Praça.

Mais tarde, em 1867, surgiria oficialmente a Associação Comercial do Rio de Janeiro — instituição que atravessaria Império, República, crises econômicas, reformas urbanas e a própria decadência do Centro sem jamais perder sua relevância simbólica para a cidade. Naqueles tempos, o cotidiano da região era quase cinematográfico.

Navios atracavam despejando mercadorias vindas da Europa. Senhores de casaca cruzavam o Largo do Paço enquanto carregadores movimentavam caixas, barricas e sacas de café sob o calor carioca.

Pelas ruas estreitas circulavam comerciantes portugueses, ingleses, franceses e brasileiros discutindo negócios, seguros marítimos, importações e investimentos.

A poucos metros dali, igrejas históricas como a Lapa dos Mercadores – uma irmandade justamente de comerciantes, fundada em 1743 – badalavam seus sinos enquanto o Rio consolidava sua posição como principal porto do país.

A própria Associação Comercial refletia esse ambiente cosmopolita. A tese mostra que sua diretoria reunia brasileiros, ingleses, portugueses, franceses, espanhóis, alemães e norte-americanos, numa demonstração clara da importância internacional do porto carioca.

Mas talvez o aspecto mais fascinante seja perceber como aqueles comerciantes atuavam politicamente. A pesquisa da UFF sustenta que a Associação Comercial funcionava quase como um “partido dos negociantes”, articulandointeresses econômicos e tentando influenciar diretamente as decisões do Estado brasileiro.

Não se discutia apenas comércio.

Discutia-se o futuro do porto, a infraestrutura da cidade, tarifas alfandegárias, investimentos, ferrovias, crédito, expansão urbana e até temas sociais de enorme impacto nacional.

Entre seus dirigentes esteve ninguém menos que Irineu Evangelista de Souza, o Visconde de Mauá, símbolo máximo do empreendedorismo brasileiro no século XIX. Enquanto isso, o Centro fervilhava.

A Rua do Ouvidor se tornava o grande corredor elegante da cidade. A Praça do Comércio consolidava sua importância.

Os sobrados misturavam escritórios, cafés, residências e armazéns. E o porto fazia do Rio uma das cidades mais importantes do Atlântico Sul.

Hoje, mais de um século depois, há algo curiosamente familiar acontecendo. O Centro do Rio volta a respirar, em meio a um forte movimento cultural de valorização do que sempre teve valor, e Renascimento imobiliário e urbanístico.

Novos bares ocupam antigos imóveis históricos. Sobrados são restaurados.

Projetos de retrofit atraem moradores. A Praça XV recupera movimento nos fins de semana.

A Rua do Ouvidor volta a receber rodas de samba, turistas e cariocas interessados em redescobrir a cidade histórica.

E a velha Associação Comercial do Rio de Janeiro permanece ali, diante da Baía de Guanabara, como uma testemunha silenciosa de todas essas transformações.

Talvez porque, no fundo, o Centro nunca tenha deixado de ser o lugar onde o Rio pensa a si próprio.

Fonte: Diário do Rio.

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