Educação

Estudante Isabelle Lemos, do Gardênia Azul, é aprovada em Stanford e outras quatro universidades dos EUA


A estudante Isabelle Lemos, de 18 anos, moradora da Gardênia Azul, na Zona Oeste do Rio, foi aprovada na Universidade de Stanford e em outras quatro instituições dos Estados Unido

Entre ruas estreitas da Gardênia Azul e páginas de livros que abriam janelas para o universo, Isabelle de Oliveira Lemos construiu, ainda muito jovem, um projeto de vida pouco comum para sua realidade. Aos 18 anos, a estudante atravessa fronteiras simbólicas e geográficas ao conquistar uma vaga na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, resultado de uma trajetória marcada por curiosidade, persistência e acesso transformador à educação.

Moradora da Gardênia Azul, na zona sudoeste do Rio de Janeiro, Isabelle cresceu em uma realidade comum a muitos jovens da periferia. Filha de mãe solo, viu de perto os desafios financeiros enquanto a mãe, Miriam de Oliveira, se dividia entre múltiplos empregos.

“A minha mãe é meu suporte emocional. Sempre me escutou, ela sempre me incentivou a manter a minha saúde, primeiro de tudo, mas também a nunca desistir”, conta.

Foi a tia, Vera Lucia, quem apresentou à menina um universo que mudaria sua vida. “Ela sempre valorizou muito os estudos.

Me levava para livrarias, bibliotecas, e eu ficava horas lendo”, lembra Isabelle. O incentivo foi tão determinante que, aos três anos, ela já sabia ler e escrever.

Pouco tempo depois, pulou uma série na escola pública por já estar avançada em relação à turma.

A paixão pela ciência surgiu cedo e nunca mais saiu do horizonte. “Quando eu era criança, eu sempre dizia que queria ser cientista.

Eu queria entender como as coisas funcionavam, principalmente o cérebro”, diz. Com o tempo, o interesse se ampliou para a matemática e a astronomia, até ganhar um objetivo claro: a engenharia aeroespacial.

O ponto de virada veio no 7º ano, quando Isabelle conquistou uma bolsa integral pelo Instituto Ismart. A partir daí, passou a viver uma rotina dupla, estudava pela manhã em escola pública e, à tarde, em um colégio particular na Freguesia.

“Eu lidava com duas realidades ao mesmo tempo, duas exigências. Foi intenso, mas também foi o que abriu portas”, afirma.

No ensino médio, já integrada definitivamente ao colégio particular com bolsa integral, ela teve acesso a laboratórios, aulas avançadas e oportunidades que aprofundaram seu interesse pela área. Participou de olimpíadas científicas, programas acadêmicos e iniciou projetos próprios.

Entre eles, o “Hive”, um protótipo de satélite voltado para a captura de lixo espacial. A ideia surgiu após a leitura de um artigo sobre o acúmulo de detritos na órbita terrestre.

“Eu comecei a ficar muito intrigada com esse problema. Eu não tenho recursos para construir um satélite real, mas tenho capacidade para desenvolver uma solução inicial”, explica.

Apesar da relevância do projeto, a estudante destaca que outro aspecto foi decisivo em sua aprovação: o compromisso com questões sociais. Durante um programa de verão na Universidade Harvard, com bolsa integral, ela desenvolveu um modelo matemático para analisar o racismo em operações policiais no Brasil.

“Eu moro em uma favela, eu tenho contato diário com esses problemas. Eu queria ajudar de alguma maneira”, diz.

A combinação entre excelência acadêmica e engajamento social chamou a atenção das universidades americanas. Isabelle foi aceita em cinco instituições: Wesleyan, Notre Dame, Dartmouth College, Universidade de Rochester e Stanford, sua escolha final.

“A Stanford acabou fazendo mais sentido para mim porque tem uma abordagem mais interdisciplinar. Eu quero trabalhar com engenharia espacial, mas também com impacto social”, explica.

O caminho até a aprovação, no entanto, não foi linear. Isabelle acumulou rejeições ao longo da trajetória, incluindo processos seletivos ainda na infância e, mais recentemente, a negativa de Princeton.

“Eu recebi vários ‘nãos’. Mas entendi que cada universidade busca um perfil.

O importante foi manter a autenticidade e não desistir no primeiro não”, afirma.

A preparação para o processo de admissão nas universidades dos EUA contou com o apoio do Prep Program, iniciativa da Fundação Estudar que oferece mentoria e preparação gratuita para estudantes interessados em cursar universidades no exterior. E ela faz questão de rejeitar uma narrativa puramente meritocrática sobre sua história.

“Não foi só esforço meu. Eu tive apoio, tive oportunidades e também tive sorte de estar no lugar certo, na hora certa.

Mas também tive a cabeça para não desistir”, reflete.

Agora, prestes a embarcar para os Estados Unidos, Isabelle dedica seus últimos meses no Rio a retribuir. Atua em projetos educacionais, mentorias e iniciativas para incentivar outros jovens da rede pública.

“Eu quero transformar minha história em algo inspirador para quem está vindo depois”, diz.

Seu maior objetivo vai além da carreira. “Eu quero me consolidar profissionalmente, mas sem deixar de lado o impacto social.

Quero usar tudo o que eu aprender para ajudar outras pessoas a também mudarem suas realidades”, afirma.

Ao olhar para trás, Isabelle resume o que considera essencial em sua trajetória: coragem. “Sonhar alto não pode ser só um delírio.

É um ato de coragem. Mesmo com dificuldades, você tentar sair da realidade em que vive já é algo muito forte.

E isso precisa ser valorizado”.

Da Gardênia Azul para uma das universidades mais prestigiadas do mundo, Isabelle Lemos prova que talento e oportunidade, quando se encontram, podem redefinir destinos e ampliar horizontes para muito além do céu.

Fonte: Vozdascomunidades.

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