Segurança Pública

Contrabando de canetas emagrecedoras dispara no Rio e desafia fiscalização


Caixas de isopor recheadas de gelo chegam aos vendedores com um conteúdo proibido: ampolas de tirzepatida e canetas emagrecedoras, medicamentos inicialmente voltados ao tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. Sem receita, fiscalização sanitária ou controle de origem, esses produtos percorrem mais de 1,5 mil quilômetros do Paraguai até o Rio de Janeiro.

Vendidos por grupos de mensagens a preços que chegam a ser menos da metade do valor de mercado e entregues por atravessadores, eles alimentam um mercado clandestino que já alcançou até a porta dos presídios fluminenses e combina contrabando internacional, roubos a farmácias, riscos à saúde e a obsessão pelo emagrecimento rápido.

Dados da Receita Federal e da Polícia Federal mostram uma expansão vertiginosa deste mercado no Estado. Em 2024, a Receita apreendeu 115 medicamentos emagrecedores; em 2025, esse número subiu para 1.

026 unidades, avaliadas em R$ 2,4 milhões, um aumento de 8,5 vezes. Apenas entre janeiro e abril de 2026, já foram retidas 1.

771 unidades, principalmente no Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim (Galeão), superando em mais de 70% todo o ano anterior.

A Polícia Federal confirma a tendência. Foram 794 apreensões em 2025 e, até o momento em 2026, 796.

Segundo os investigadores, a principal rota permanece praticamente inalterada: Paraguai, Foz do Iguaçu e Rio de Janeiro.

Parte da carga entra no Brasil pela Ponte da Amizade, entre Ciudad del Este e Foz do Iguaçu. Já em território nacional, os produtos seguem por rodovias federais ou, na maioria dos casos, em voos domésticos até o Rio.

O delegado da PF Sandro Luiz do Valle Pereira explica que, dos 14 procedimentos instaurados este ano envolvendo contrabando de canetas emagrecedoras, dez se referem a voos vindos de Foz do Iguaçu; os demais vêm da Europa e dos Estados Unidos. Apenas nas últimas duas semanas, foram sete procedimentos com a apreensão de 415 medicamentos.

“O perfil é difuso: homens, mulheres e idosos tentam entrar com esses produtos. Alguns compram para uso próprio; outros, para revender“, detalha Pereira.

Na última semana, quatro passageiros foram presos transportando 154 ampolas de tirzepatida e retatrutida em malas e bolsas médicas, todas vindas de Foz do Iguaçu. Outras duas apreensões foram registradas no Galeão na sexta-feira passada.

Áudios obtidos pelo mostram que a dinâmica é sistemática. Em um deles, uma vendedora detalha a operação a uma cliente: “Temos uma pessoa que vai para o Paraguai.

Lá, compra nas farmácias ou laboratórios, sem receita, muito mais barato que aqui. De carro, atravessa por Foz do Iguaçu.

Os produtos chegam refrigerados, com gelo. Não tem erro.”

A comerciante ainda revela que atravessadores pagam 30% do valor em dólar a facilitadores para liberar a mercadoria.

Segundo a PF, “a atuação é permanente no enfrentamento a crimes relacionados à importação, comercialização e distribuição irregular de medicamentos e insumos sujeitos à vigilância sanitária”.

O transporte exige cuidado especial com a temperatura. Ricardo José Mesquita, auditor-fiscal e chefe do Serviço de Vigilância da Receita Federal, afirma que já foram encontrados desde garrafas térmicas com ampolas até garrafas de vinho e potes de doce de leite usados para esconder medicamentos.

A promessa de emagrecimento rápido alimenta uma economia informal. Uma vendedora da Zona Oeste do Rio revelou que entrou no negócio após usar os próprios produtos: “Estava desempregada, comecei a tomar e vi resultado.

Todo mundo quer ser magro.”

O mercado clandestino chegou até o sistema penitenciário. Em janeiro, um policial penal foi flagrado tentando entrar no Presídio Evaristo de Moraes, em São Cristóvão, com anabolizantes, hormônios e uma caixa de canetas emagrecedoras identificada como “retatrutide 40mg”.

Grande parte desses medicamentos não possui autorização para comercialização no país. Atualmente, segundo a Anvisa, apenas Ozempic, Rybelsus, Wegovy, Poviztra e Extensior (com semaglutida) e Mounjaro e Mounjaro Multidose (com tirzepatida) têm registro no Brasil.

Fonte: Diário do Rio.

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