Crise invisível: moradores do Complexo do Alemão sofrem com falta de abastecimento contínuo de água
A falta de água no Complexo do Alemão, zona norte do Rio, atravessou o limite do aceitável e virou uma crise de saúde pública. No último feriado de abril, o desabastecimento castigou diversas áreas, mas a situação foi dramática na Travessa Eugênia, na Dr.
Noguchi (Morro do Adeus) e na Rua Antônio Austregésilo (Fazendinha). Mais do que torneiras secas, o que se vê é um cenário de abandono onde famílias são obrigadas a conviver com medo do esgoto e o risco de doenças.
Segundo os moradores, o caos começou após o estouro de uma das bombas principais da região, o que paralisou todo o sistema de abastecimento para reparos de emergência.
Para Jéssica Souza, moradora da localidade, a ineficiência da concessionária causou danos que vão além das torneiras secas. Ela relata que o refluxo da rede de esgoto já invadiu sua residência com “água podre”, atingindo a marca de um metro e meio de altura.
“Eu tive que fazer tratamento psicológico. Quando chove, eu entro em pânico”, revela.
A crise hídrica também adoece. Jéssica conta que seus filhos ficaram um mês doentes após o consumo de água contaminada, gerando gastos inesperados com saúde.
Sem poço artesiano, a família depende exclusivamente da rede oficial que, segundo ela, falha constantemente. “Se acabar a água da minha caixa, meus filhos ficam sem nada.
Já ficamos 15 dias sem uma gota d’água. Como faz comida, lava roupa, limpa a casa desse jeito?”
Na fazendinha, o descaso atinge quem mais precisa de assistência. Elaine Silva, recém-operada, enfrenta a recuperação em meio ao desabastecimento.
“Eu acabei de fazer uma cirurgia, como ficar de repouso nessa situação? Sem água para tomar banho, sem água para beber.
É uma humilhação, minha filha, Ana Beatriz, que está cuidando de mim enquanto fico nessa aflição” desabafa. A falta de água em um período pós-cirúrgico aumenta drasticamente os riscos de infecção e compromete a saúde da moradora.
O Retrato da Desigualdade em Números
Dados recentes confirmam que a falta d’água no Rio de Janeiro tem alvo definido. O Mapa da Desigualdade da Casa Fluminense (2024) e levantamentos do Instituto Trata Brasil (2025) revelam que, no estado, 71% das internações por doenças relacionadas à ausência de saneamento atingem pessoas negras.
A Pesquisa da Rede Favela Sustentável mostra ainda que 17% dos moradores de favelas ficam sem água ao menos duas vezes por semana. Essa desigualdade se reflete também no acesso à rede oficial: enquanto apenas 8% da população branca da Região Metropolitana sofre com a falta de abastecimento, o índice sobe para 12% entre a população negra.
O custo invisível da sobrevivência
Além do trauma e das doenças, o desabastecimento impõe um prejuízo financeiro direto. Muitos moradores recorrem à compra de bombas elétricas, cujo valor no mercado varia entre R$ 400 e R$ 900 reais, dependendo da potência necessária para levar a água até os pontos mais altos.
O gasto não para na compra: há a instalação e o aumento na conta de luz, já que o equipamento precisa ficar ligado por horas para vencer a baixa pressão da rede. Para famílias que vivem com o orçamento apertado, o valor de uma bomba representa o dinheiro que faz falta.
Em nota em abril, a concessionária Águas do Rio informou que o desabastecimento recente foi causado por uma falha técnica em um sistema de bombeamento regional. A empresa afirmou que equipes trabalham no reparo e que o fornecimento será normalizado gradativamente.
No Brasil, o acesso à água potável ainda não é formalmente garantido pela Constituição, mas já é reconhecido como direito humano essencial. A Lei nº 9.
433/1997, que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, define a água como bem público e estabelece o consumo humano como prioridade em situações de escassez. Em 2025, o Congresso Nacional aprovou a PEC do Saneamento, incluindo o saneamento básico entre os direitos sociais constitucionais, ao lado de saúde, educação e moradia.
Além disso, tramitam propostas como a PEC 6/2021, que busca inserir o acesso à água potável diretamente na Constituição.
Fonte: Vozdascomunidades.
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